A história de Lindyr nasce de uma linhagem da casa Sedharion, que teciam a realidade com fios de seda e com música, acreditando que cada nota era um vínculo com a Nobre Tecelã, a “Mãe das Linhas”, mas em algum ponto da guerra e da sede por poder, a intenção por trás das canções apodreceu. A casa trocou oferenda por instrumento de domínio, e a deusa respondeu cortando os fios, silenciou a música e deixou apenas ecos e fragmentos de um dom que antes movia exércitos com elegância e agora só sobrevive como cicatriz na tradição.
O jogo começa em um mundo quebrado onde, Lindyr desperta no Santuário sem memória, uma voz feminina, doce e sábia, chama-o apenas de Caçador e o mantém de pé com uma regra simples: não perseguir lembranças, não abrir portas que o vazio ainda não consegue sustentar. Do lado de fora, anomalias rasgam o perímetro e o selamento range; por baixo de tudo, a “Música do Mundo” insiste em vibrar, dissonante, distante, como se a própria Terra se lembrasse de uma canção que Lindyr não consegue mais cantar.
Nosso diferencial é tratar narrativa como sistema de progressão, não como camada decorativa. A história não é entregue em blocos lineares, ela é desbloqueada e regulada por mecânicas do jogo. Os “Ecos” funcionam como moeda de acesso a flashbacks jogáveis (com requisito mínimo), e os Pontos de Memória viram “portas” controladas, você só atravessa quando tem recurso e quando o level design quer que aquela peça de passado faça sentido naquele momento.
Fragmentar a narrativa serve a três objetivos claros de design.
Primeiro, alinha forma e tema: o protagonista está amnésico por motivo diegético, então o jogador também vive um presente “funcional” e um passado em reconstrução, aprendendo o mundo do mesmo jeito que o Caçador aprende a si mesmo.
Segundo, beneficia a jornada: cada fase no presente resolve um problema concreto (selos, anomalias, rotas), enquanto cada flashback adiciona contexto e muda a leitura emocional do que você acabou de fazer, o jogo ganha reinterpretação constante sem precisar de exposição excessiva.
Terceiro, dá controle de ritmo e retenção: você pode espaçar revelações, manter mistério, recompensar exploração/colecionáveis e até estimular replay, porque registros, partituras e memórias não são “lore solta”; são peças de montagem que reconfiguram a compreensão do jogador.
Antes de qualquer registro ou lenda, a Terra era um mundo completo, silencioso e estável. Não existia magia, pois ela não era necessária. Os humanos viviam de forma simples, guiados pelo trabalho, pela observação da natureza e pelo equilíbrio entre sobrevivência e convivência. Não havia grandes guerras, nem a necessidade de dominação. A própria ideia de um conflito total era algo inexistente naquele mundo antigo. Os deuses existiam, mas permaneciam distantes, observando sem intervir, pois, a Terra seguia seu curso sem precisar de milagres.
Em um plano além da compreensão humana, porém, existiam os demônios. O mundo deles estava em colapso, corroído por excesso de energia, ‘instabilidade e pela ausência de renovação. Diferente dos deuses, que se sustentavam pelo equilíbrio e pela fé, os demônios dependiam de ruptura, transformação e emoções extremas para existir. Ao observarem a Terra, enxergaram um planeta fértil, estável e intocado por forças mágicas, um mundo perfeito para ser moldado à força e transformado em um novo lar. Não vieram movidos por ódio, mas por necessidade. Rasgaram o céu em um evento que marcou todo o planeta e, por meio dessa fenda, invadiram a Terra declarando guerra aos humanos, não por vê-los como inimigos dignos, mas como obstáculos frágeis em um território desejado.
A humanidade não tinha qualquer defesa contra aquilo. Cidades inteiras foram apagadas, regiões se tornaram inabitáveis e o céu, uma vez rompido, jamais voltou a ser plenamente natural. Somente então os deuses perceberam que a Terra não possuía meios de resistir. Como resposta tardia, criaram os elfos, seres ligados diretamente à essência do planeta, dotados de magia natural, longevidade e sensibilidade ao sofrimento da própria Terra. Eles não nasceram para governar ou conquistar, mas para conter uma ameaça que já havia causado danos irreversíveis.
A guerra que se seguiu não foi contínua, mas interminável em suas consequências. Ao longo de quase dez séculos, batalhas se espalharam por continentes, mares e céus. A magia, usada em escala jamais vista, passou a se infiltrar no próprio planeta, deformando a realidade. Montanhas surgiram onde antes havia planícies, oceanos foram corrompidos por criaturas abissais e florestas tornaram-se conscientes. A Terra, que nunca fora feita para sustentar magia, começou a absorvê-la como uma ferida aberta que não cicatriza.
Os humanos, mesmo sem terem nascido com o dom da magia, foram lentamente afetados por ela. A energia liberada durante séculos de conflito infiltrou-se no sangue, na terra e no espírito humano. Alguns passaram a manifestar habilidades instintivas e instáveis, outros sofreram mutações físicas ou mentais, e muitos foram simplesmente consumidos por forças que não compreendiam. A magia humana nunca foi natural como a dos elfos; ela é fragmentada, imprevisível e frequentemente perigosa, resultado direto de um mundo contaminado pela guerra. Com o tempo, os sobreviventes aprenderam a temê-la tanto quanto a usá-la.
Enquanto isso, os demônios mudaram sua forma de agir. Perceberam que não precisavam apenas destruir, mas corromper. Os elfos, apesar de criados pelos deuses, possuíam emoções, curiosidade e desejo. Os demônios ofereceram conhecimento proibido, poder sobre a vida e a capacidade de moldar novas formas de existência. Alguns elfos aceitaram esses pactos, não como servos, mas como aliados momentâneos. Desse envolvimento surgiram novas raças e monstros, seres híbridos que não pertenciam totalmente a nenhum plano. Muitos se adaptaram ao ciclo da vida da Terra deformada, passando a habitar o céu, o mar e a superfície do mundo. Nem todos eram malignos; muitos simplesmente existiam, frutos irreversíveis de escolhas feitas durante a guerra.
Com o passar das eras, tornou-se evidente que os demônios não poderiam ser destruídos sem que a própria Terra fosse levada junto. A solução encontrada pelos elfos que mantiveram sua fé foi o selamento. Utilizando magia natural, poder divino e sacrifícios massivos, a fenda foi aprisionada em uma pedra rúnica negra, cravada profundamente no planeta. O céu se fechou, a invasão cessou, e os demônios foram aprisionados, aguardando em silêncio.
A Terra, porém, jamais se recuperou. O mundo que restou é um reflexo fragmentado do que já foi. Ruínas de civilizações antigas se espalham pelo planeta, zonas mágicas distorcem a realidade e criaturas nascidas da guerra continuam a existir. A magia tornou-se parte do mundo, mas de forma antinatural, instável e sempre ameaçadora. Os humanos reconstruíram sociedades sobre os escombros do passado, criando reinos, religiões e ordens que tentam explicar uma história quase esquecida. Os elfos se fragmentaram, alguns se isolando, outros desaparecendo, carregando a culpa pelo que ajudaram a criar.
A pedra rúnica negra, entretanto, está se desgastando. As runas se’ apagam lentamente, sussurros atravessam sonhos e cultos surgem em lugares esquecidos. A guerra terminou apenas na superfície. Nas profundezas da Terra, ela continua esperando apenas que alguém, humano ou não, permita que aquilo que foi selado volte a respirar.
Meu nome é Lindyr, eu faço parte de uma linhagem de guerreiros poderosos chamados Sedharion, que possuíam habilidades místicas com fios de seda capazes de extinguir exércitos inteiros com elegância mortal. Este poder ancestral era um dom da deusa que nossa família venerava há gerações - eles a chamavam de "Nobre Tecelã" ou "Mãe das Linhas", enquanto seus inimigos a conheciam pelo nome mais sombrio: a deusa Aracnídea. A casa Sedharion não era apenas conhecida por suas habilidades marciais letais, mas também por sua profunda conexão com a música. Diziam que os antigos Sedharion teciam não apenas com seda, mas com melodias - que suas canções podiam acalmar tempestades, curar feridas da alma e, nas mãos erradas, induzir loucura ou morte. Os salões de nossa casa sempre ressoavam com o som de instrumentos élficos: harpas de cristal, flautas de madeira ancestral e tambores que pareciam pulsar com o coração da própria Terra. Cada membro da família aprendia desde cedo a tocar ao menos um instrumento, pois acreditava-se que a música fortalecia a conexão com a Nobre Tecelã e aprimorava o controle sobre os fios de seda místicos.
Os elfos, como meu povo, haviam sido criados pelos deuses como resposta à invasão demoníaca que quase destruiu a Terra há séculos. Éramos seres ligados diretamente à essência do planeta, dotados de magia natural, longevidade e sensibilidade ao sofrimento da própria Terra. Não nascemos para governar ou conquistar, mas para conter uma ameaça que havia causado danos irreversíveis ao mundo.
A guerra contra os demônios durou quase dez séculos. Os demônios vieram de um plano além da compreensão, seu próprio mundo em colapso, corroído por excesso de energia, instabilidade e pela ausência de renovação. Diferente dos deuses, que se sustentavam pelo equilíbrio e pela fé, os demônios dependiam de ruptura, transformação e emoções extremas para existir. Ao observarem a Terra, enxergaram um planeta fértil, estável e intocado por forças mágicas - um mundo perfeito para ser moldado à força e transformado em um novo lar. Rasgaram o céu em um evento que marcou todo o planeta e, por meio dessa fenda, invadiram a Terra declarando guerra aos humanos.
A humanidade não tinha qualquer defesa contra aquilo. Cidades inteiras foram apagadas, regiões se tornaram inabitáveis e o céu, uma vez rompido, jamais voltou a ser plenamente natural. Somente então os deuses perceberam que a Terra não possuía meios de resistir, e nos criaram como resposta tardia.
Ao longo de quase dez séculos, batalhas se espalharam por continentes, mares e céus. A magia, usada em escala jamais vista, passou a se infiltrar no próprio planeta, deformando a realidade. Montanhas surgiram onde antes havia planícies, oceanos foram corrompidos por criaturas abissais e florestas tornaram-se conscientes. A Terra, que nunca fora feita para sustentar magia, começou a absorvê-la como uma ferida aberta que não cicatriza.
Os humanos, mesmo sem terem nascido com o dom da magia, foram lentamente afetados por ela. A energia liberada durante séculos de conflito infiltrou-se no sangue, na terra e no espírito humano. Alguns passaram a manifestar habilidades instintivas e instáveis, outros sofreram mutações físicas ou mentais, e muitos foram simplesmente consumidos por forças que não compreendiam.
Enquanto isso, os demônios mudaram sua forma de agir. Perceberam que não precisavam apenas destruir, mas corromper. Os elfos, apesar de criados pelos deuses, possuíam emoções, curiosidade e desejo. Os demônios ofereceram conhecimento proibido, poder sobre a vida e a capacidade de moldar novas formas de existência. Alguns elfos aceitaram esses pactos, não como servos, mas como aliados momentâneos. Desse envolvimento surgiram novas raças e monstros, seres híbridos que não pertenciam totalmente a nenhum plano.
Com o passar das eras, tornou-se evidente que os demônios não poderiam ser destruídos sem que a própria Terra fosse levada junto. A solução encontrada pelos elfos que mantiveram sua fé foi o selamento. Utilizando magia natural, poder divino e sacrifícios massivos, a fenda foi aprisionada em uma pedra rúnica negra, cravada profundamente no planeta. O céu se fechou, a invasão cessou, e os demônios foram aprisionados, aguardando em silêncio.
A Terra, porém, jamais se recuperou. O mundo que restou era um reflexo fragmentado do que já foi, com ruínas de civilizações antigas espalhadas pelo planeta e zonas mágicas que distorciam a realidade.
Porém, foi durante esse período de reconstrução após a guerra que a tragédia atingiu minha família. Por culpa dos líderes de minha casa, a Nobre Tecelã nos havia abandonado. Os antigos textos relatavam que os líderes Sedharion, tentados pelos demônios durante os últimos anos da guerra, começaram a aceitar sussurros sombrios que prometiam poder além da compreensão. Ofereceram-lhes técnicas proibidas que amplificariam os poderes da seda, rituais que misturariam a bênção divina com energia demoníaca.
Alguns líderes do clã, desesperados por vantagem na guerra interminável, aceitaram. Começaram a usar os dons sagrados não mais para proteger a Terra, mas para conquistas mesquinhas e vinganças pessoais, corrompendo a pureza original dos ensinamentos. Pararam de tocar as canções sagradas, silenciaram as harpas de cristal que por gerações haviam honrado a deusa, e transformaram a música - que deveria ser oferenda divina - em mera ferramenta de manipulação e controle.
A Nobre Tecelã, percebendo que sua bênção estava sendo contaminada pela influência demoníaca, desgostosa com tal profanação e temendo que seu próprio poder se tornasse um canal para os demônios, retirou sua bênção numa noite tempestuosa. Dizem que naquela noite, um trovão sobrenatural ecoou por todas as terras élficas, e cada instrumento musical da casa Sedharion rachou simultaneamente. A deusa cortou todos os fios que a conectavam à família, deixando apenas ecos de poder para trás - fragmentos insuficientes para o verdadeiro domínio, mas fortes o bastante para que as técnicas de combate ainda pudessem ser praticadas.
Como último recurso após essa perda devastadora, e com a guerra contra os demônios finalmente terminada através do selamento, os mestres do clã desenvolveram posturas de combate com seda para cinco estilos de armas: lança, alabarda, rapieira, foice e, por fim, a espada grande e leve. Cada postura imitava os movimentos de diferentes aracnídeos: a lança fluía como as pernas longas de uma aranha-lobo, a alabarda cortava como as quelíceras de uma tarântula, a rapieira picava como um escorpião, a foice ceifava como as mandíbulas de uma viúva-negra, e a espada dançava como os movimentos hipnóticos de uma aranha-saltadora.
Assim permaneceu nossa tradição até chegar à minha família, que abrigava uma das mais poderosas guerreiras que o reino élfico já havia contempl ado. Ela dominava a postura da espada com tamanha elegância que seus inimigos nem sentiam seus corpos sendo fatiados - como um lampejo prateado, ela era conhecida como a Aranha de Prata. Seu nome era Meliam, minha mãe, que se apaixonou pelo meu pai, Galdor, e juntos tiveram cinco filhos: quatro meninos e uma menina.
Meliam possuía uma presença que comandava respeito mesmo em silêncio. Seus cabelos negros como a noite tinham mechas prateadas nas pontas - marca dos antigos usuários da seda bendita. Seus olhos verde-esmeralda pareciam enxergar através das pessoas, e quando empunhava sua espada, movia-se com uma graça que beirava o sobrenatural. Diziam que ela conseguia cortar uma folha no ar em sete pedaços antes que tocasse o chão.
Mas a habilidade mais singular de minha mãe era sua voz. Meliam cantava enquanto lutava - melodias antigas que faziam os próprios fios de seda vibrarem em harmonia. Seus inimigos relatavam que ouvir sua canção de batalha era como ser embalado para um sono eterno, enquanto sua lâmina dançava ao ritmo de notas impossíveis. Diziam que ela havia recuperado fragmentos da antiga conexão com a Nobre Tecelã através da música, mesmo após o abandono da deusa. Nas noites tranquilas, ela tocava uma lira de prata ancestral que havia pertencido à nossa bisavó, e as notas pareciam fazer as estrelas brilharem mais intensamente.
Havia rumores sussurrados entre os anciãos de que Meliam estava tentando fazer algo que nenhum Sedharion havia conseguido desde o abandono: reconectar-se com a Nobre Tecelã através da purificação das canções sagradas. Ela passava noites inteiras em meditação, tocando melodias que haviam sido esquecidas, limpando-as de qualquer resquício da corrupção demoníaca que havia contaminado nossa linhagem. Alguns diziam que, em suas últimas semanas de vida antes de meu nascimento, suas mechas prateadas haviam começado a brilhar fracamente à luz da lua - sinal de que talvez, apenas talvez, a deusa estivesse começando a ouvi-la novamente.
Porém, no dia do meu nascimento, minha mãe havia morrido no parto para me trazer ao mundo. O parto foi longo e difícil - três dias de agonia que esgotaram até mesmo a força lendária de Meliam. As parteiras sussurravam que algo estava errado, que o bebê parecia resistir ao nascimento como se pressentisse a tragédia que causaria. Quando finalmente vim ao mundo, foi com o último suspiro de minha mãe, como se minha vida tivesse sido comprada com a dela.
Dizem que, no momento de sua morte, todas as cordas de sua lira de prata se romperam simultaneamente, produzindo um som agudo e doloroso que ecoou por toda a propriedade - como se a própria música chorasse sua partida. Mais perturbador ainda, testemunhas relataram que viram um brilho prateado se extinguir em seus olhos no momento final, como uma vela sendo apagada por um vento súbito. Alguns anciãos interpretaram isso como a Nobre Tecelã retirando o fragmento de conexão que Meliam havia começado a reconstruir, levando-o de volta consigo. Outros acreditavam que a deusa havia chorado ao perder aquela que poderia ter restaurado a bênção à nossa casa.
Meu pai e meus três irmãos juraram um ódio intenso contra mim por conta disso. A casa Sedharion, outrora cheia de risos e da música da espada de Meliam cortando o ar em seus treinos matinais, transformou-se numa mansão silenciosa onde minha presença era um lembrete constante da perda. Galdor nunca mais sorriu da mesma forma, e seus olhos, antes cheios de amor, tornaram-se frios como o aço quando pousavam em mim.
A música, que antes era a alma de nossa casa, foi banida - nenhum instrumento foi tocado desde aquele dia fatídico, como se meu pai quisesse apagar até mesmo a memória dos sons que Meliam amava. Ele ordenou que todas as harpas, flautas e tambores fossem trancados em cofres nas profundezas da propriedade. A única exceção foi a lira de prata de Meliam, que ele manteve em seus aposentos - não por sentimentalismo, mas como um memorial silencioso de tudo que havia perdido. As cordas rompidas nunca foram substituídas, e o instrumento permaneceu mudo, um símbolo da música morta de nossa casa.
Meu irmão mais velho, Aelor, era o orgulho de meu pai. Logo aos dez anos, havia começado seu treinamento para dominar a postura de seda da lança. Aelor possuía a mesma determinação férrea do pai e a elegância natural da mãe. Seus movimentos com a lança eram como raios controlados, precisos e devastadores. Ele se tornara o herdeiro perfeito, carregando o peso das expectativas familiares com a dignidade de quem nasceu para liderar. Quando me olhava, seus olhos continham não apenas ódio, mas algo pior - desprezo absoluto, como se eu fosse menos que nada.
Dain, sendo o mais inteligente entre nós, preferira seguir os caminhos da sabedoria para servir ao clã ao invés de empunhar uma arma. Seus estudos abrangiam desde táticas militares antigas até diplomacia e gestão de recursos. Dain possuía uma mente afiada como navalha e conseguia resolver disputas com palavras onde outros falhavam com espadas. Tornou-se o conselheiro não-oficial da família, sempre sussurrando estratégias no ouvido do pai. Diferente de Aelor e Ionar, Dain não me demonstrava ódio aberto - ele simplesmente me ignorava completamente, como se eu não existisse. De certa forma, sua indiferença gélida era ainda mais dolorosa que a hostilidade dos outros.
Ionar era o mais arrogante e presunçoso de todos, porém ainda assim um guerreiro que havia herdado uma das posturas ancestrais. Ele deleitava-se em humilhar oponentes mais fracos e tinha o hábito de prolongar combates apenas para exibir sua superioridade. Seus olhos sempre brilhavam com malícia quando me via, como se planejasse constantemente formas de me torturar. Era Ionar quem mais ativamente buscava oportunidades de me fazer sofrer - um empurrão "acidental" nas escadas, comida "esquecida" que deveria chegar aos meus aposentos, rumores maldosos espalhados entre os servos. Ele transformara minha tortura em seu passatempo favorito.
Elaria, sendo a querida de nosso pai, fora afastada de qualquer arma para protegê-la, mas ela decidira seguir os assuntos políticos do clã. Com apenas dois anos mais velha que eu, Elaria possuía a diplomacia que faltava aos homens da família. Ela entendia que poder verdadeiro às vezes vinha de influência e conexões, não apenas da força bruta. Seus salões políticos atraíam jovens nobres de várias casas, criando uma rede de informações valiosa para os Sedharion.
Elaria era também a única que ainda mantinha viva a tradição musical da família - escondida em seus aposentos, ela praticava a harpa ancestral que havia conseguido salvar antes que fosse trancada, mantendo as melodias sagradas vivas mesmo que em segredo. Ela havia aprendido com nossa mãe antes de eu nascer, e guardava aquelas canções como tesouros preciosos. Nas raras ocasiões em que me permitia ouvir, suas melodias me faziam chorar sem entender exatamente por quê - era como se meu sangue reconhecesse algo que minha mente não podia compreender.
E por fim eu - por conta do desamor de minha família, não tivera nenhuma chance de crescer dentro do meu clã. Minha infância foi marcada pela solidão dos corredores vazios de nossa mansão. Enquanto meus irmãos recebiam lições de mestres renomados, eu era deixado com servos que me tratavam com uma educação fria e distante. Passava horas observando pela janela os treinos de meus irmãos, sonhando secretamente com o dia em que talvez pudesse me juntar a eles.
Porém, minha vida havia começado com um fardo que não era meu, com uma culpa que não me pertencia. A única que conseguira ver quem eu realmente era foi Elaria... Ela frequentemente me encontrava escondido na biblioteca, lendo sobre heróis e aventureiros, e ao invés de me expulsar, sentava-se ao meu lado e me contava histórias sobre nossa mãe.
Foi através de Elaria que aprendi que Meliam costumava cantar canções de ninar élficas e que tinha um jardim secreto onde cultivava flores raras. Foi ela quem me contou sobre a lira de prata de nossa mãe, e sobre como Meliam acreditava que a música era a chave para reconectar nossa família com a Nobre Tecelã. "Ela dizia que cada nota era como um fio invisível," Elaria sussurrava para mim, "tecendo conexões entre o mundo material e o divino. Dizia que os demônios haviam corrompido as canções, mas que se alguém as purificasse novamente, nota por nota, palavra por palavra, a Tecelã poderia ouvir novamente."
Elaria me contou que nos últimos meses de gravidez, Meliam havia se tornado quase obsessiva com esse objetivo. Passava noites inteiras tocando e retocando as mesmas melodias, tentando encontrar a versão pura de cada canção, aquela que existia antes da corrupção demoníaca. "Ela dizia que quando você nascesse, queria te ensinar as canções puras desde o início," Elaria revelou com lágrimas nos olhos. "Queria que você fosse o primeiro Sedharion em gerações a aprender nossa arte sem nenhum traço de influência demoníaca. Ela acreditava que assim, talvez você pudesse ser aquele que restauraria nossa conexão com a deusa."
Essa revelação me atingiu como um raio. Minha mãe havia morrido não apenas me trazendo ao mundo, mas no meio de uma missão sagrada que ela esperava que eu continuasse. O peso dessa expectativa nunca realizada se somou à culpa que eu já carregava.
Creio que se não fosse por Elaria, eu já estaria morto há muito tempo. Ela era minha única aliada, minha única família verdadeira naquela casa de fantasmas e ressentimentos.
Tempo se passou e completei dezesseis anos, ainda sem ter decidido o que faria de minha vida. Além disso, eu sabia que não conseguiria posição alguma dentro do meu clã. Observava meus contemporâneos recebendo posições de responsabilidade, participando de caçadas importantes e sendo apresentados a outras famílias nobres como potenciais aliados. Enquanto isso, eu permanecia uma sombra na própria casa, reconhecido apenas como "o filho que custou a vida da Aranha de Prata".
Foi quando minha irmã me convenceu a entrar, durante a calada da noite, numa biblioteca antiga de nosso clã, restrita apenas às pessoas do alto escalão. A biblioteca estava localizada na torre mais antiga de nossa propriedade, um lugar que respirava conhecimento ancestral. As paredes eram cobertas por estantes que se erguiam até o teto abobadado, repletas de tomos encadernados em couro exótico e pergaminhos que exalavam o aroma de séculos de sabedoria preservada.
Na calada da noite, conseguimos entrar facilmente, e ficamos por horas intrigados com todos os livros que havia ali. Encontramos tratados sobre a história élfica, relatos detalhados sobre a guerra contra os demônios, manuais de diplomacia com reinos humanos reconstruídos após o selamento, mapas de rotas comerciais secretas e, mais fascinante ainda, diários pessoais de antigos líderes do clã.
Elaria descobriu um diário de nossa bisavó, que descrevia rituais antigos de comunhão com a Nobre Tecelã. O texto falava sobre como a música não era apenas uma oferenda, mas uma linguagem através da qual a deusa se comunicava com seus escolhidos. Havia partituras de canções sagradas escritas numa notação que Elaria mal conseguia decifrar, acompanhadas de instruções sobre como cada melodia deveria ser tocada em harmonia com os movimentos da espada. "Quando a lâmina e a canção se tornam uma," dizia o texto, "a Tecelã pode ouvir através do véu que ela mesma teceu."
Mas havia também registros mais sombrios. Encontramos um tomo que descrevia em detalhes horríveis como os demônios haviam tentado os líderes Sedharion durante as últimas décadas da guerra. Os sussurros começaram sutilmente - promessas de poder para proteger melhor os inocentes, técnicas que poderiam encurtar a guerra e salvar vidas. Gradualmente, as ofertas se tornaram mais sedutoras: conhecimento proibido sobre como amplificar a magia da seda, rituais que misturariam bênção divina com energia demoníaca para criar guerreiros imparáveis.
O diário de um antigo líder do clã, escrito há cerca de cento e cinquenta anos, descrevia sua própria queda com detalhes perturbadores: "Hoje executei o ritual que eles me ensinaram. A sensação era embriagante - meus fios de seda brilhavam com uma luz vermelha, e minha velocidade havia dobrado. Mas quando tentei tocar minha harpa esta noite, as cordas produziram sons discordantes, como gritos distantes. Que preço paguei?"
Entradas posteriores mostravam sua deterioração: as canções sagradas que antes fluíam naturalmente de seus dedos tornaram-se impossíveis de executar corretamente. A música que tocava começou a causar desconforto nos ouvintes ao invés de paz. Eventualmente, ele parou completamente de tocar, dizendo apenas: "A música morreu em mim. Apenas os ecos permanecem, e eles soam como lamentações."
O texto terminava abruptamente algumas páginas depois, com uma última entrada apressada: "Ela veio em sonhos esta noite. A Nobre Tecelã. Não falou palavras, apenas olhou para mim com olhos que continham séculos de decepção. Quando acordei, metade dos meus cabelos havia embranquecido - não com a prata da bênção, mas com um branco doentio, sem vida. Ela está nos deixando. Todos nós. E é culpa nossa."
Enquanto isso, eu me perdia em textos sobre técnicas de combate perdidas e relatos sobre os grandes guerreiros Sedharion do passado. Li sobre meu trisavô, que diziam poder tecer ilusões com seus fios de seda enquanto cantava baladas de batalha. Li sobre uma tia-avó que havia composto uma ópera inteira baseada nos padrões de movimento das treze posturas da espada, cada ária correspondendo a uma técnica diferente.
Porém, um livro me chamou especial atenção: "A Dança da Espada de Seda", que ensinava todas as posturas ancestrais da espada - as mesmas que minha mãe havia dominado. O livro era diferente dos outros, encadernado em couro que parecia brilhar com uma luz própria sob a luz das velas. Quando o abri, as páginas revelaram ilustrações detalhadas de figuras executando movimentos que pareciam dançar através do pergaminho. Cada postura era acompanhada de descrições poéticas que falavam sobre "fluir como seda no vento" e "cortar como sussurros mortais".
O que mais me impressionou foi a descoberta de que cada postura tinha uma melodia correspondente. Nas margens das páginas, escritas numa tinta prateada que brilhava fracamente, havia notações musicais - fragmentos de canções que deveriam ser cantadas mentalmente enquanto se executava cada movimento. "A espada canta," dizia uma anotação na caligrafia de minha mãe, "e a canção corta."
Havia notas extensas de Meliam comparando as versões "corrompidas" das canções com as versões "purificadas" que ela estava desenvolvendo. Ao lado de cada melodia original, ela havia transcrito uma versão modificada, com certas notas alteradas, certos ritmos ajustados. "Esta nota," ela escrevera ao lado de uma passagem específica, "sempre soou errada para mim. Dissonante. Como um grito abafado sob beleza superficial. Quando a mudei para isto, a música finalmente respirou verdade."
Página após página, vi o trabalho meticuloso de minha mãe - anos de dedicação tentando desfazer a corrupção demoníaca nota por nota, palavra por palavra. Era como se ela estivesse limpando cada canção, polindo-a até que brilhasse com sua forma original e pura.
Quando segurei esse livro, senti um arrepio percorrer minha espinha - senti que estava destinado a encontrá-lo. Por um momento, as palavras nas páginas pareceram brilhar e pude jurar que escutei um sussurro suave, quase maternal, me incentivando a continuar lendo. Era como se o próprio espírito de minha mãe tivesse guiado minha mão até aquele conhecimento.
Quando minha irmã sussurrou urgentemente que alguém havia entrado na biblioteca, coloquei o livro rapidamente em minha bolsa, quase o derrubando no chão devido ao nervosismo, e me escondi nas sombras. Meu irmão Aelor e meu pai entraram, com Galdor mostrando a biblioteca ao filho mais velho.
Aelor havia recebido um cargo importante - Comandante da Guarda de Elite - um grande passo para se tornar um dos futuros líderes do clã Sedharion, e meu pai irradiava orgulho. Durante a conversa, escutei meu pai mencionar um plano contra nosso clã élfico rival, os Elenwëar. Embora não pudesse ouvir claramente devido à distância, vi meu irmão reverenciar respeitosamente meu pai após ele terminar de falar, e depois ambos saíram da biblioteca.
Quando questionei minha irmã se havia conseguido ouvir algo, ela confirmou que não conseguira entender os detalhes. Quando a situação se acalmou, saímos de lá sem que soubessem de nossa presença.
Durante os dias seguintes, eu estudava o livro com dedicação obsessiva, e nas noites escapava de casa para treinar o que havia aprendido. Encontrei uma clareira escondida na floresta próxima à nossa propriedade, onde a luz da lua filtrava através das copas das árvores, criando um ambiente perfeito para a prática silenciosa.
O livro explicava que para executar as posturas com eficácia, era necessário possuir um corpo capaz de suportar a velocidade extrema que as técnicas demandavam. A postura de seda da espada era a mais rápida de todas - representava o equilíbrio perfeito entre força e velocidade. Cada movimento fluía naturalmente para o próximo, criando uma sequência letal que mais parecia uma dança mortal do que técnicas de combate.
O livro descrevia treze posturas diferentes, cada uma nomeada após diferentes aspectos da natureza das aranhas: "Teia Matinal", "Salto da Caçadora", "Abraço da Viúva", "Sussurro Mortal", "Teia Cortante", "Presa Venenosa", "Dança das Sombras", "Tecelagem Infinita", "Captura Silenciosa", "Lamento da Aranha", "Véu de Seda", "Mordida Final" e "Entrelaçamento Eterno". Cada uma dessas posturas representava não apenas uma técnica de combate, mas uma filosofia completa de movimento e intenção.
Mas o que tornava o livro verdadeiramente especial eram as anotações musicais que minha mãe havia adicionado e purificado. Para cada postura, ela havia transcrito uma melodia específica - algumas eram apenas fragmentos de poucos compassos, outras eram canções completas que deveriam ser mantidas na mente durante toda a execução da técnica.
A primeira postura, "Teia Matinal", tinha uma melodia suave e fluida, como o orvalho caindo sobre fios de teia ao amanhecer. A técnica focava em movimentos circulares e contínuos, criando um padrão defensivo que capturava os ataques do oponente como uma teia captura insetos. A canção purificada de minha mãe havia removido notas graves e dissonantes, deixando apenas tons cristalinos que pareciam dançar como a própria luz.
"Abraço da Viúva" possuía uma melodia lenta e hipnótica, quase como uma canção de ninar mortal. Era uma técnica de contra-ataque que exigia paciência absoluta - esperar o momento perfeito, então envolver o oponente num abraço fatal de lâmina e seda. Minha mãe havia anotado: "Esta canção tentava me fazer sentir fome, desejo de dominar. Removi as notas que sussurravam ganância, mantive apenas a paciência da caçadora."
Comecei a praticar cantarolando baixinho as melodias enquanto executava os movimentos. No início, era extremamente difícil - minha mente se dividia entre coordenar o corpo e manter a melodia, resultando em movimentos desajeitados e notas desafinadas. Meu corpo não estava condicionado para a velocidade que as técnicas exigiam. Meus músculos doíam após cada sessão de treino, meus pulmões ardiam ao tentar manter o fôlego enquanto cantava e me movia.
Passei semanas apenas tentando dominar o condicionamento físico básico. Corria pela floresta todas as noites, escalava árvores para desenvolver força nos braços, praticava exercícios de respiração que encontrei descritos no livro. "O corpo deve se tornar instrumento," escrevera um antigo mestre, "tão afinado quanto qualquer harpa, tão responsivo quanto cordas de seda."
Mas com o tempo, algo extraordinário começou a acontecer. Quando conseguia sincronizar perfeitamente o movimento com a melodia, sentia como se meu corpo se tornasse mais leve, meus reflexos mais rápidos, minha lâmina mais precisa. Era como se a música desbloqueasse algo profundo em minha técnica, algo que o mero treino físico jamais alcançaria.
A sensação era difícil de descrever - era como se cada nota cantada criasse ressonância em meus músculos, guiando-os através dos movimentos com precisão impossível. Quando executava "Salto da Caçadora" enquanto cantava sua melodia purificada - uma explosão rápida de notas ascendentes - meu corpo parecia se mover mais rápido que minha própria consciência podia acompanhar.
Além do condicionamento físico, era necessária uma espada específica - as lâminas comuns se quebrariam sob a pressão dessas técnicas ancestrais. A espada deveria ser grande, porém leve, com um cabo de tamanho médio e uma lâmina ampla, mas extraordinariamente fina. O livro mostrava ilustrações detalhadas da arma: uma lâmina elegante e alongada, com formato distintivo que permitia os movimentos fluidos necessários para as posturas de seda. A guarda era minimalista, decorada apenas com o símbolo de uma aranha estilizada, e o peso deveria ser distribuído perfeitamente para permitir rotações e giros impossíveis com espadas normais.
Levei muito tempo para compreender as bases da postura, mas quando finalmente compreendi a essência - não apenas os movimentos, mas a união entre a técnica e a melodia - os resultados começaram a aparecer. Meus movimentos, inicialmente desajeitados e forçados, começaram a fluir com mais naturalidade. Conseguia sentir a diferença quando executava uma técnica corretamente: era como se todo o meu corpo vibrasse em harmonia, e por breves momentos, sentia uma conexão espiritual com algo maior que eu mesmo.
Nas noites em que treinava, quando conseguia alcançar aquele estado de perfeita sincronização entre espada e canção, jurava poder ouvir um segundo coro de vozes femininas se juntando à minha melodia - ecos distantes, como se viessem de muito longe, mas inequivocamente reais. Eram vozes antigas, vozes que pareciam vir de antes da corrupção, antes da guerra, antes de tudo dar errado. E embora não pudesse entender as palavras, o som me enchia de uma sensação de pertencimento que nunca havia experimentado.
Uma noite em particular, enquanto praticava "Entrelaçamento Eterno" - a décima terceira e mais complexa postura - algo extraordinário aconteceu. A técnica exigia que eu executasse uma sequência de doze movimentos em menos de três segundos, cada um fluindo para o próximo sem interrupção, enquanto cantava uma melodia que começava grave e ascendia progressivamente até notas quase impossíveis de alcançar.
Eu havia tentado essa postura dezenas de vezes sem sucesso. Meu corpo não conseguia se mover rápido o suficiente, minha voz falhava nas notas mais altas, e a coordenação entre ambos sempre desmoronava no quinto ou sexto movimento. Mas naquela noite específica, algo clicou.
Comecei a sequência, e pela primeira vez, não pensei conscientemente em cada movimento. Deixei a melodia purificada de minha mãe guiar meu corpo. Cantei as notas que ela havia meticulosamente limpo de qualquer traço de corrupção demoníaca, e minha espada de madeira dançou através do ar como se tivesse vontade própria.
Primeiro movimento - "Teia Matinal" - estabelecendo a base. Segundo movimento - "Salto da Caçadora" - explosão de velocidade. Terceiro movimento - "Abraço da Viúva" - contração e envolvimento.
Minha voz ascendia junto com os movimentos, cada nota mais alta, mais pura, mais cristalina.
Quarto movimento - "Sussurro Mortal" - um corte tão rápido que nem produzia som. Quinto movimento - "Teia Cortante" - lâmina girando em arco impossível. Sexto movimento - "Presa Venenosa" - estocada precisa seguida de torção.
As vozes fantasmagóricas que eu sempre ouvia se tornaram mais claras, mais próximas. Não eram apenas ecos - eram presenças reais, observando, aprovando.
Sétimo movimento - "Dança das Sombras" - três cortes simultâneos através de diferentes planos. Oitavo movimento - "Tecelagem Infinita" - a lâmina traçando padrões que pareciam deixar rastros prateados no ar. Nono movimento - "Captura Silenciosa" - movimento defensivo que se transforma em ataque.
Minha voz atingiu notas que não sabia ser capaz de produzir. O ar ao meu redor começou a vibrar visivelmente, e pela primeira vez, vi fios prateados - reais, tangíveis - se materializando por breves instantes ao redor de minha lâmina de madeira.
Décimo movimento - "Lamento da Aranha" - ataque giratório que cobre todos os ângulos. Décimo primeiro movimento - "Véu de Seda" - defesa absoluta que cria uma barreira momentânea. Décimo segundo movimento - "Mordida Final" - o golpe conclusivo, preciso e inevitável.
Quando completei a sequência, o mundo pareceu parar por um momento. Os fios prateados que haviam se materializado permaneceram visíveis por alguns segundos antes de se dissolverem como fumaça. O coro de vozes atingiu um crescendo que fez meu coração acelerar, e então, tão subitamente quanto havia começado, tudo cessou.
Caí de joelhos, ofegante, suor escorrendo pelo meu rosto. Meu corpo tremia de exaustão, mas meu coração estava acelerado de emoção. Eu havia feito. Pela primeira vez, havia executado perfeitamente uma das posturas mais complexas. E mais importante - havia visto os fios. Os fios de seda místicos que definiram minha linhagem. Eles haviam respondido, mesmo que por apenas um momento, às canções purificadas de minha mãe.
Olhei para minhas mãos trêmulas e percebi algo que me fez congelar. Havia um único fio prateado, fino como um cabelo, enrolado ao redor do meu dedo indicador. Quando tentei tocá-lo com a outra mão, ele se dissolveu, mas não antes de eu sentir sua textura - não era físico, não exatamente. Era como tocar um raio de luar solidificado, algo entre matéria e energia.
"Ela está ouvindo," sussurrei para a floresta vazia. "A Nobre Tecelã está ouvindo."
Porém, eu enfrentava dificuldades com a espada - as lâminas improvisadas que usava se quebravam facilmente sob a pressão das técnicas avançadas. Já havia destruído três espadas de treino tentando executar a postura "Teia Cortante", e estava ficando cada vez mais frustrado com a falta do equipamento adequado. A espada de madeira que eu usava era suficiente para praticar os movimentos básicos e desenvolver memória muscular, mas para realmente progredir, precisava da lâmina verdadeira.
Certo dia, perguntei à minha irmã se ela conhecia alguma espada como a descrita no livro. Ela pareceu confusa, chegando até a achar que eu havia inventado tal tipo de arma. Contudo, ela lembrou que nossa mãe havia sido mestra dessa postura, então logicamente deveria existir tal espada em algum lugar da propriedade familiar. Elaria sugeriu que eu verificasse o arsenal principal ou o quarto de nosso pai, mencionando que se recordava vagamente de uma espada peculiar no quarto dele.
Com bastante apreensão, decidi investigar ambos os locais durante a noite. No arsenal, encontrei apenas armas especiais das outras posturas ancestrais: lanças com pontas serrilhadas que brilhavam com encantamentos fracos, alabardas com lâminas curvas gravadas com runas antigas, foices com cabos extensíveis feitos de madeira negra que parecia absorver luz, e rapieiras delgadas decoradas com teias de prata. Mas nenhuma espada que correspondesse às especificações do livro.
Quando finalmente entrei no quarto de meu pai, meu coração batia tão forte que temi que alguém pudesse ouvi-lo. O quarto era espartano, mantido com a ordem militar típica de Galdor. Não havia luxos desnecessários, apenas eficiência e funcionalidade. Mas sobre a lareira, em contraste stark com a austeridade do resto do quarto, havia um altar improvisado dedicado à memória de minha mãe.
Deparei-me com a espada de minha mãe emoldurada sobre a lareira, ao lado de um retrato dela. Meliam estava representada em toda sua beleza: cabelos longos e negros com mechas brancas nas pontas, olhos que pareciam guardar segredos ancestrais, e um sorriso suave que me fez compreender por que meu pai havia se apaixonado perdidamente por ela. Ao lado dela no retrato, parcialmente visível, estava sua lira de prata - o instrumento sagrado que ela havia tocado durante toda sua vida, ainda com todas as cordas intactas, capturado antes da tragédia.
A espada era exatamente como o livro descrevia. A lâmina tinha aproximadamente um metro e vinte centímetros de comprimento, ampla mas extremamente fina, com uma curvatura suave que lhe dava aparência elegante e mortal. O metal tinha um brilho prateado único, não o prata comum, mas algo mais profundo - como se a luz fosse refletida de camadas internas do metal. A guarda era minimalista, decorada apenas com uma aranha estilizada cujos olhos eram duas pequenas gemas esmeraldas - do mesmo tom dos olhos de minha mãe.
O cabo era envolto em couro negro desgastado pelo uso, moldado perfeitamente à forma das mãos de Meliam após anos de prática. No pomo da espada, gravado em escrita élfica antiga, estava o nome da lâmina: "Silmareth" - "Brilho de Prata" em nossa língua.
Lembrei-me então de uma passagem que havia lido na biblioteca proibida: os antigos usuários da seda da Nobre Tecelã desenvolviam cabelos brancos gradualmente, sinal da conexão divina. Observando mais atentamente o retrato, percebi outros detalhes que havia passado despercebidos: um brilho quase imperceptível nos olhos de minha mãe, como se refletissem uma luz interior que não vinha de fonte externa, e suas mãos posicionadas de forma a sugerir que estava segurando fios invisíveis - seus dedos curvados exatamente na posição que eu havia aprendido era usada para manipular a seda mística.
Ao redor do retrato, meu pai havia colocado pequenos objetos pessoais de Meliam: um broche em forma de aranha que ela usava frequentemente, um lenço de seda que ainda mantinha um aroma floral fraco, e uma pequena caixa de música que, quando abri cuidadosamente, começou a tocar uma melodia familiar - era a mesma que acompanhava a postura "Abraço da Viúva".
Comecei a me questionar se minha mãe teria mantido algum vínculo com a Tecelã antes de morrer, embora isso parecesse impossível, já que a deusa havia abandonado nossa família gerações atrás. Talvez a conexão de Meliam fosse algo que ela estava construindo do zero, nota por nota, purificando as canções corrompidas até que fossem dignas de serem ouvidas novamente pela deusa.
Isso explicaria por que ela havia sido tão extraordinariamente habilidosa, superando até mesmo os mestres mais experientes de nossa linhagem. Neguei esse pensamento várias vezes naquele momento, tentando convencer a mim mesmo de que era apenas esperança ilusória. Mas fazia sentido - explicaria por que minha mãe conseguia realizar feitos que outros Sedharion só podiam sonhar, por que seus inimigos falavam dela com medo quase supersticioso, por que diziam que sua lâmina cortava não apenas carne mas também destino.
Antes que pudesse tomar qualquer decisão sobre a espada, escutei ruídos de alguém se aproximando e fugi pela janela antes que alguém entrasse, meu coração disparado pela adrenalina e pelo medo de ser descoberto. Voltei à estaca zero quanto à espada, mas como já sabia suas características, decidi fazer uma réplica em madeira para continuar treinando.
Passei semanas esculpindo e ajustando o peso da réplica, usando técnicas que aprendi observando os artesãos do clã quando eles trabalhavam no arsenal. Usei madeira de carvalho negro da floresta próxima, conhecida por sua densidade e durabilidade. Cortei a madeira seguindo o formato exato das ilustrações do livro, lixando obsessivamente até que cada curva correspondesse perfeitamente ao que eu havia memorizado.
Para simular o peso e o equilíbrio da lâmina real, inseri pequenas barras de metal dentro da madeira, distribuindo-as cuidadosamente ao longo do comprimento. Testei o equilíbrio repetidamente, fazendo ajustes minúsculos até que a réplica girasse no meu dedo da mesma forma que o livro descrevia que Silmareth deveria girar.
Embora não pudesse replicar a funcionalidade de uma lâmina verdadeira, consegui criar algo que me permitiu praticar os movimentos básicos e desenvolver a memória muscular necessária. A réplica não cortaria nada, mas me permitiria internalizar os padrões de movimento sem destruir mais espadas de treino.
Durante esse período, Elaria começou a me ensinar secretamente os fundamentos da música de forma mais estruturada. Nos encontrávamos em seu quarto, onde ela mantinha a harpa ancestral escondida sob véus pesados, e ela me mostrava as escalas básicas, os acordes sagrados que nossa mãe usava, e como sentir o ritmo que pulsava através das melodias élficas.
"A música não é apenas som," ela explicava pacientemente enquanto meus dedos tropeçavam nas cordas da harpa. "É intenção, é emoção cristalizada em vibrações. Você precisa sentir a canção antes de poder cantá-la verdadeiramente. Mamãe dizia que cada nota carrega significado - não apenas o som, mas a intenção por trás dele. É por isso que as canções corrompidas pelos demônios soavam erradas. Não eram as notas em si, mas a intenção venenosa entrelaçada nelas."
Ela me ensinou sobre os diferentes modos musicais élficos - escalas que não existiam na música humana, intervalos que soavam impossíveis para ouvidos não-treinados. Havia o "Modo da Aurora", usado para canções de esperança e renovação. O "Modo do Crepúsculo", para melodias de tristeza e despedida. E o mais sagrado de todos - o "Modo da Teia", reservado apenas para as canções que acompanhavam as técnicas de combate.
Minha voz, descobri, era surpreendentemente adequada para as canções de batalha. Embora não possuísse o alcance cristalino de Meliam, tinha um timbre profundo que parecia fazer as próprias paredes ressoarem quando cantava as notas baixas das melodias mais antigas. Elaria ficou impressionada quando, após semanas de prática, consegui reproduzir uma das canções que acompanhava a postura "Abraço da Viúva" - uma melodia lenta e hipnótica que fazia o ar ao nosso redor parecer mais denso.
"Você tem o dom dela," Elaria sussurrou com lágrimas nos olhos quando termineI de cantar. "Sua voz é diferente, mais grave, mais sombria talvez. Mas tem a mesma qualidade - aquela ressonância que faz algo dentro de você vibrar em resposta. Mamãe ficaria tão orgulhosa."
Além de praticar na harpa, Elaria me ensinou exercícios vocais específicos que Meliam havia desenvolvido. "Ela dizia que a voz precisa ser tão forte quanto a lâmina," Elaria explicou. "Você precisa ser capaz de manter notas longas enquanto se move em velocidade máxima, de transitar entre registros sem perder fôlego, de cantar enquanto seu coração dispara e seus pulmões queimam."
Os exercícios eram brutalmente difíceis. Eu tinha que correr no lugar enquanto mantinha uma nota única por dois minutos. Fazer flexões enquanto cantava escalas ascendentes e descendentes. Executar sequências de movimentos de espada enquanto cantava melodias complexas sem perder uma única nota.
"Quando você estiver em batalha verdadeira," Elaria dizia durante essas sessões tortuosas, "você estará ferido, exausto, desesperado. A canção não pode falhar mesmo assim. Ela precisa ser tão natural quanto respirar, tão instintiva quanto piscar."
Meses se passaram assim, dividido entre treino físico na floresta e treino musical com Elaria. Meu corpo se transformou - músculos que eu nem sabia que existiam se desenvolveram, minha velocidade aumentou dramaticamente, minha resistência se multiplicou. E minha voz se fortaleceu, capaz agora de produzir as notas mais exigentes das canções purificadas de minha mãe.
Mas mais importante que qualquer desenvolvimento físico ou musical, eu comecei a entender verdadeiramente o que minha mãe havia tentado alcançar. Não era apenas sobre dominar técnicas de combate ou executar canções perfeitamente. Era sobre restaurar algo que havia sido perdido - uma conexão sagrada que fora quebrada por ganância e fraqueza, corrompida por sussurros demoníacos.
Cada noite que eu treinava na floresta, cada vez que conseguia sincronizar perfeitamente espada e canção, eu não estava apenas me tornando mais forte. Estava continuando o trabalho de minha mãe. Estava tecendo, fio por fio, nota por nota, uma nova conexão com algo antigo e divino.
E nas noites mais silenciosas, quando a lua estava cheia e minha execução era perfeita, eu jurava sentir que alguém - ou algo - estava observando. Não com o interesse malévolo dos demônios que haviam corrompido minha família, mas com algo diferente. Curiosidade talvez. Ou esperança.
A Nobre Tecelã estava ouvindo.
Quando completei dezoito anos, meu pai me convocou à sua sala para uma reunião - algo totalmente inesperado vindo dele. A mensagem chegou através de um servo formal, que me informou que deveria me apresentar "adequadamente vestido" para uma "discussão de assuntos familiares importantes". Meu coração disparou - em todos os meus anos, meu pai nunca havia solicitado minha presença para algo além de refeições silenciosas e cerimônias obrigatórias onde minha presença era protocolarmente necessária.
Fui com a mente aberta, embora temeroso do que poderia ouvir. Parte de mim esperava que fosse finalmente me expulsar da propriedade, me exilar para algum posto distante onde minha presença não mais lembraria a família de sua perda. Outra parte, menor e mais ingênua, ousava esperar algo diferente.
O escritório de meu pai era um reflexo de sua personalidade: organizado, intimidador e cheio de troféus de suas conquistas militares. As paredes eram adornadas com armas capturadas de inimigos derrotados, estandartes de clãs rivais que haviam se curvado ao poder dos Sedharion, e mapas detalhados de territórios élficos marcados com anotações táticas. Ele estava sentado atrás de uma mesa maciça de carvalho élfico, seus olhos me estudando com uma intensidade que me fez sentir como um inseto sob um vidro de aumento.
Por um longo momento, ele não disse nada, apenas me observou. Eu permaneci de pé diante dele, mantendo minha postura ereta apesar do desconforto, recusando-me a demonstrar a ansiedade que roía minhas entranhas.
Finalmente, ele falou. Sua voz era controlada, desprovida de emoção - a voz de um comandante dando ordens, não de um pai falando com seu filho.
Meu pai revelou que havia arranjado um casamento com o clã Elenwëar para estabelecer uma trégua após anos de conflito. A rixa entre nossos clãs datava de décadas atrás, quando disputas territoriais sobre terras fronteiriças e questões comerciais relacionadas às rotas de comércio de seda mística haviam escalado para confrontos sangrentos. O que começou como desacordos diplomáticos havia se transformado em emboscadas, assassinatos políticos e eventualmente batalhas abertas.
Ambos os lados haviam perdido guerreiros valiosos e recursos consideráveis mantendo essa inimizade. Meu próprio tio, irmão mais novo de meu pai, havia sido morto num duelo com um campeão Elenwëar há quinze anos. Em retaliação, os Sedharion haviam queimado três aldeias sob proteção dos Elenwëar. O ciclo de vingança parecia não ter fim.
"Os anciãos de ambos os clãs concordaram que isso tem que acabar," meu pai disse, sua voz fria e pragmática. "Estamos enfraquecendo um ao outro enquanto clãs menores ganham força. A solução tradicional para tais impasses é uma aliança matrimonial."
Eu assenti, ainda não compreendendo por que essa informação estava sendo compartilhada comigo. Presumia que Aelor ou talvez Dain seria escolhido para tal união estratégica.
Então, para minha completa surpresa, meu pai disse que o noivo escolhido era eu.
As palavras levaram um momento para processar. Eu? O filho desprezado, o assassino de Meliam, aquele que nem sequer tinha posição oficial no clã? Por que eu seria escolhido para algo tão importante?
Como se lendo minha confusão, meu pai continuou: "Aelor é herdeiro e precisa de uma união que fortaleça nossa posição política internamente. Dain está prometido à filha do Senhor Conselheiro, o que nos dá influência na corte real. Ionar..." ele pausou, e pela primeira vez vi algo parecido com desgosto cruzar suas feições, "Ionar não tem o temperamento para diplomacia. Você é a escolha lógica."
Lógica. Não porque eu era valorizado, mas porque eu era descartável o suficiente para ser usado assim. E ainda assim, era mais do que eu jamais havia esperado.
Mas então meu pai disse algo que fez meu mundo parar.
"E eu sei que você está treinando durante as noites."
Meu sangue gelou. Como ele sabia? Fui tão cuidadoso, sempre praticando longe o suficiente da propriedade, sempre retornando antes do amanhecer.
"Estudando a postura da espada de seda," ele continuou, seus olhos fixos nos meus. "Usando as técnicas de sua mãe."
Preparei-me para a explosão de raiva, para a punição, para ser acusado de roubar o livro da biblioteca proibida. Mas o que veio a seguir me chocou ainda mais.
"E estou orgulhoso."
As palavras atingiram-me como um raio. Senti um aperto tão forte no peito que pensei que fosse desmaiar. Meus olhos arderam com lágrimas que lutei desesperadamente para conter. Nunca, em dezoito anos de existência, havia escutado essas palavras direcionadas especificamente a mim.
Nunca havia visto orgulho nos olhos de meu pai quando me olhava. Apenas dor, raiva, ressentimento - mas nunca orgulho.
Quase chorei na frente dele, mas consegui me conter, mordendo o lábio até sentir o gosto metálico do sangue. Meu corpo tremia com o esforço de manter a compostura, de não desmoronar ali mesmo.
"Você tem talento," meu pai continuou, sua voz ainda controlada mas com algo diferente agora - reconhecimento, talvez. "Mais do que eu esperava. Os guardas noturnos relataram ver luzes prateadas na floresta, ouvir canções. Investiguei pessoalmente e vi você treinar."
Ele havia me observado? Por quanto tempo? A revelação era ao mesmo tempo perturbadora e... comovente, de certa forma.
"Você executa as técnicas com precisão notável para alguém autodidata," ele disse. "E as canções... você está usando as versões purificadas que Meliam desenvolveu, não as versões corrompidas dos textos antigos."
Ele sabia sobre o trabalho de minha mãe. Claro que sabia - ele havia sido casado com ela, havia a observado dedicar anos de sua vida àquele projeto.
"Sua mãe acreditava que poderia restaurar nossa conexão com a Nobre Tecelã," meu pai disse, e pela primeira vez em anos, ouvi dor genuína em sua voz. "Ela passou décadas purificando as canções, nota por nota, removendo a corrupção que os demônios haviam plantado. Quando morreu..." ele pausou, engolindo com dificuldade, "quando morreu, o trabalho estava quase completo. Apenas as últimas três canções ainda precisavam ser purificadas."
Ele se levantou e caminhou até a janela, olhando para a propriedade lá fora, suas mãos cruzadas atrás das costas.
"Eu proibi a música nesta casa porque cada nota me lembrava dela. Cada melodia era uma faca no coração. Mas também porque temia que se alguém tocasse as canções - mesmo as purificadas - sem a força de vontade e pureza de intenção de Meliam, a corrupção poderia retornar. Poderia se espalhar."
Ele se virou para me encarar novamente.
"Mas você... você tem algo dela. Vi nos seus movimentos, ouvi na sua voz. Você não está apenas copiando técnicas. Você entende. E isso..." ele hesitou, como se as próximas palavras lhe custassem algo precioso, "isso me dá esperança."
Não consegui falar. Minha garganta estava apertada demais, minha mente girando rápido demais processando essa súbita mudança na realidade.
Meu pai continuou explicando que minha futura noiva estava a caminho, chegaria no dia seguinte, e que além do casamento, estava me concedendo um posto na Guarda do Clã Sedharion, trabalhando sob o comando de meu irmão mais velho, Aelor. Seria uma patente média - Capitão de Esquadrão - um cargo respeitável que me daria responsabilidades reais pela primeira vez na vida.
"Você terá comando sobre vinte guerreiros," ele explicou. "Será responsável pela segurança de um dos portões orientais de nossa propriedade. É uma posição de confiança."
Confiança. Ele estava me confiando algo. Após dezoito anos de isolamento e rejeição, ele estava me dando não apenas reconhecimento, mas responsabilidade.
"Espero grandes conquistas suas em nome do clã e de nosso povo," disse meu pai, e suas palavras carregavam peso de expectativa real, não sarcasmo ou desdém. "Você carrega o sangue de Meliam. É hora de honrar esse legado."
Pela primeira vez na vida, senti que talvez tivesse um lugar na família, uma chance de provar meu valor e honrar a memória de minha mãe de verdade - não através da culpa por sua morte, mas através de continuar o trabalho que ela havia começado. A perspectiva de finalmente pertencer a algum lugar me encheu de uma esperança que há muito tempo pensara estar morta.
Quando meu pai me dispensou, saí do escritório em estado de choque. Meus pés me levaram automaticamente através dos corredores, mas minha mente estava longe, processando cada palavra, cada implicação.
Fiquei tão feliz que corri para contar à minha irmã, mal conseguindo articular as palavras devido à emoção. Encontrei Elaria em seus aposentos, onde ela estava bordando um vestido cerimonial - trabalho tedioso que ela detestava, mas que era esperado de uma dama de sua posição.
Ela me encontrou em estado de quase delírio de alegria, rindo e gesticulando enquanto tentava explicar o que havia acontecido. As palavras saíam atropeladas - "pai", "orgulhoso", "casamento", "posto na guarda", "capitão" - num fluxo quase incoerente.
Elaria largou o bordado e me abraçou forte, lágrimas escorrendo pelo seu rosto. "Eu sempre soube," ela soluçou. "Sempre soube que este dia chegaria. Você merece isso, Lindyr. Merece ser feliz, ser reconhecido, ser parte desta família verdadeiramente."
Ficamos assim por longos minutos, abraçados, chorando juntos - ela de alegria, eu de uma mistura caótica de emoções que não conseguia nomear. Alívio, esperança, gratidão, e ainda uma pitada de desconfiança sussurrando no fundo da minha mente que isso era bom demais para ser verdade.
"Conte-me tudo," Elaria disse finalmente, nos separando e limpando as lágrimas. "Cada detalhe."
Sentei-me e relatei toda a conversa com nosso pai. Os olhos de Elaria se arregalaram quando mencionei que ele sabia sobre meu treinamento secreto.
"Ele viu você?" ela perguntou, impressionada. "E não ficou furioso?"
"Não apenas não ficou furioso," respondi, ainda incrédulo. "Ele disse que estava orgulhoso. Elaria, ele usou essa palavra. Orgulhoso de mim."
Ela sorriu através das lágrimas. "Mamãe teria ficado tão feliz. Ela sempre disse que você seria especial, mesmo antes de nascer.
Dizia que sentia algo diferente em você, algo que os outros filhos não tinham."
"Pai também mencionou isso," disse. "Sobre o trabalho de mamãe purificando as canções. Ele sabia sobre tudo."
"É claro que sabia," Elaria respondeu suavemente. "Ele a amava mais que tudo neste mundo. Observava cada aspecto de sua busca, mesmo que não compreendesse completamente. E quando ela morreu... ele não culpava apenas você, Lindyr. Ele culpava a si mesmo por não ter podido salvá-la, culpava a Nobre Tecelã por ter abandonado nossa família, culpava o mundo inteiro. Você era apenas o alvo mais conveniente para toda aquela dor."
Era um entendimento que eu nunca havia considerado. Sempre havia assumido que o ódio de meu pai era simples e direto - eu matei sua amada, então ele me odiava. Mas talvez fosse mais complicado que isso.
"E agora?" perguntei. "Por que essa mudança súbita?"
Elaria considerou por um momento. "Talvez porque ele viu que você está fazendo o que Meliam não pôde completar. Você está continuando o trabalho dela. E talvez... talvez ele perceba que odeiar você todos esses anos não a trouxe de volta, não desfez o passado. Apenas criou mais dor."
Contudo, nem todos na família celebraram minha ascensão. Ionar, que sempre fora o mais arrogante e presunçoso, passou a me odiar ainda mais. No jantar naquela noite, quando a notícia foi anunciada formalmente à família, vi a expressão em seu rosto - raiva pura e não filtrada.
Sua inveja era palpável através da mesa. Ele havia lutado anos por reconhecimento, participado de dezenas de campanhas militares, derramado sangue em nome do clã. E agora eu, o filho desprezado que nunca havia empunhado uma espada em combate real, recebia um cargo importante sem sequer ter provado valor em batalha.
Seus olhos queimavam de ressentimento sempre que cruzávamos nos corredores nos dias seguintes. Mais de uma vez, ele esbarrou "acidentalmente" em mim com força suficiente para me fazer cambalear. Durante as refeições, fazia comentários velados sobre "nepotismo" e "favores imerecidos".
Aelor, por outro lado, manteve sua expressão neutra quando a notícia foi anunciada. Como herdeiro e comandante, ele simplesmente aceneu em reconhecimento. "Bem-vindo à Guarda," disse formalmente. "Espero que prove ser digno da confiança que nosso pai deposita em você."
Não havia calor em suas palavras, mas também não havia hostilidade aberta. Era melhor que nada.
Dain, fiel à sua natureza, analisou a situação com pragmatismo frio. "Um casamento com os Elenwëar é estrategicamente sólido," ele comentou durante o jantar. "E usar você como ponte diplomática resolve vários problemas simultaneamente. Politicamente, é uma jogada inteligente."
Ele falava de mim como se eu fosse uma peça em um jogo de xadrez, não seu irmão. Mas vindo de Dain, isso não era insulto - era simplesmente como ele via o mundo.
Naquela noite, deitado em minha cama, olhei para o teto e tentei processar tudo que havia mudado em um único dia. Pela primeira vez em minha vida, eu tinha propósito. Tinha posição. Tinha reconhecimento.
E logo teria uma esposa.
O pensamento me encheu de nervosismo. Quem era ela? A filha dos Elenwëar escolhida para este casamento arranjado. Seria gentil? Ressentida por ser forçada nesta união? Me odiaria à primeira vista?
Questões para outro dia, decidi. Por enquanto, permiti-me simplesmente sentir a felicidade - precária e frágil como era - de finalmente, talvez, começar a pertencer.
Quando ela chegou à propriedade do clã, recebi-a na entrada principal conforme o protocolo exigia. Meu pai estava ao meu lado, junto com Aelor e representantes do conselho dos anciãos. A delegação Elenwëar era pequena mas impressionante - guardas de elite em armaduras cerimoniais, dois anciãos do clã deles, e ao centro, ela.
Seu nome era Alariel, e ela era absolutamente deslumbrante.
Cabelos ruivos escuros que pareciam capturar a luz do sol poente, caindo em ondas até a metade das costas. Olhos verdes como as florestas mais profundas, com aquela luminosidade particular que apenas elfos possuíam - como se luz interior brilhasse através deles. Sua pele era pálida mas saudável, marcada apenas por algumas sardas leves através da ponte do nariz que de alguma forma realçavam ao invés de diminuir sua beleza.
Ela usava um vestido de viagem élfico tradicional - prático mas elegante, em tons de verde floresta e marrom terra. Uma capa leve estava presa sobre seus ombros, e uma fita de seda verde estava amarrada ao redor de sua cintura. Tinha a mesma idade que eu, dezoito anos, e carregava-se com a confiança de alguém acostumada ao respeito e posição, mas havia algo em seus olhos que sugeria uma alma cansada de formalidades.
Quando nossos olhos se encontraram pela primeira vez, senti algo estranho no peito - não amor à primeira vista, nada tão simples ou romântico. Mas reconhecimento, talvez. Como se olhasse para alguém que entendia o peso de expectativas, o fardo de ser usado como peça política.
As formalidades foram executadas com precisão cerimonial. Meu pai deu as boas-vindas à delegação Elenwëar, falou sobre paz e aliança, sobre enterrar velhas rivalidades. Os anciãos Elenwëar responderam com palavras igualmente diplomáticas. Tudo muito civilizado, muito cortês, mas com a tensão subjacente de décadas de derramamento de sangue mal escondida sob a superfície educada.
Finalmente, me pediram para escoltar Alariel até seus aposentos.
Ofereci meu braço formalmente. Ela o aceitou com uma pequena inclinação de cabeça, sua expressão perfeitamente composta - a máscara de uma dama nobre cumprindo seu dever.
Caminhamos em silêncio pelos corredores da propriedade. Eu apontava ocasionalmente certas características - "Este é o salão principal, onde festividades são realizadas", "Aquele corredor leva à biblioteca", "Os jardins são através daquelas portas" - e ela acenava educadamente, seus olhos absorvendo tudo mas sua expressão permanecendo neutra.
Quando chegamos aos aposentos que haviam sido preparados para ela - uma suíte generosa com vista para os jardins ocidentais - finalmente falei algo além de narração turística.
"Espero que estes aposentos sejam adequados," disse formalmente. "Se precisar de qualquer coisa, há servos à disposição."
Ela me estudou por um longo momento, aqueles olhos verdes penetrantes parecendo avaliar algo além da superfície.
"São adequados," respondeu, sua voz suave mas clara. "Obrigada."
Outro momento de silêncio.
"Eu..." comecei, então parei, não sabendo exatamente o que dizer. Desculpas pela situação? Promessas de que tentaria ser um bom marido? Tudo parecia inadequado.
Alariel salvou-me do momento desconfortável com um pequeno sorriso - o primeiro que eu havia visto nela. Não era alegre exatamente, mas tinha genuinidade que a máscara formal não tinha.
"Você não precisa dizer nada," ela disse gentilmente. "Nenhum de nós escolheu isso. Mas estamos aqui, e faremos o melhor da situação. Certo?"
Assenti, grato pela compreensão. "Certo."
"Então talvez," ela continuou, aquele pequeno sorriso crescendo ligeiramente, "possamos tentar nos conhecer como pessoas, não apenas como noivo e noiva arranjados. Se você quiser, é claro."
"Eu gostaria disso," respondi honestamente.
"Bom," ela disse. "Mas primeiro, preciso me recuperar da viagem. Dias na estrada deixam uma pessoa... menos que apresentável."
Ri suavemente. "Você parece perfeitamente apresentável para alguém que acabou de viajar."
Ela arqueou uma sobrancelha, e vi um flash de algo travesso em seus olhos. "Que gentileza diplomática. Você aprende rápido."
Despedi-me e deixei-a para descansar, mas caminhei de volta pelos corredores com algo leve no peito. Ela tinha senso de humor. Isso era mais do que eu havia ousado esperar.
O castelo já abrigava outras damas nobres - as pretendentes de meus irmãos Aelor e Dain, que residiam ali como parte dos costumes de nossa casa. Quando Alariel chegou, seria natural que se juntasse a esse grupo de damas do castelo.
A noiva de Aelor era Lady Seraphine, uma elfa alta e severa do clã Therondil, conhecidos por suas habilidades em cavalaria. Ela tinha presença intimidadora e raramente sorria, mas era respeitada por sua inteligência tática e habilidade com arco e lança montada. Seraphine tratava sua posição como noiva do herdeiro com seriedade absoluta, vendo-se como futura senhora da casa e já agindo como tal em muitos aspectos.
A prometida de Dain era Lady Lyranis, filha do Senhor Conselheiro da corte real élfica. Ela era menor e mais delicada que Seraphine, com cabelos loiros quase brancos e olhos azuis claros. Lyranis era estudiosa por natureza, passando grande parte de seu tempo na biblioteca estudando história, leis e precedentes políticos. Ela e Dain formavam um par perfeitamente adequado - ambos intelectuais, ambos vendo casamento como parceria estratégica mais que romance.
Embora essas damas não tivessem presença direta nos assuntos políticos do clã - privilégio reservado a Elaria por ser filha do líder -, elas compartilhavam os espaços sociais da propriedade, participavam de festividades, mantinham a vida cultural da casa, e geralmente ocupavam seu tempo com bordado, música (muito limitada devido à proibição de meu pai, mas ocasionalmente permitida em contextos específicos), leitura e gerenciamento de assuntos domésticos menores.
Nos primeiros dias após sua chegada, Alariel foi formalmente apresentada a Seraphine e Lyranis. O encontro foi cortês mas frio - ambas as damas já estabelecidas viam a recém-chegada como um desconhecido cuja lealdade ainda estava com os Elenwëar, o clã rival.
Foi através de Elaria que o gelo começou a quebrar. Minha irmã, apesar de suas responsabilidades políticas e sua posição única na casa, tinha talento natural para fazer as pessoas se sentirem confortáveis. Ela começou a incluir Alariel em seus passeios diários pelos jardins, convidava-a para tomar chá em seus aposentos, e gradualmente construiu uma ponte entre a recém-chegada e as outras damas.
Mas foi durante um desses chás, algumas semanas após a chegada de Alariel, que algo especial aconteceu.
As quatro damas estavam nos aposentos de Elaria - Seraphine sentada ereta numa cadeira, mantendo postura perfeita mesmo em ambiente relaxado; Lyranis folheando um livro de poesia antiga; Alariel olhando pela janela para os jardins; e Elaria servindo chá de uma bandeja de prata delicada.
A conversa havia sido educada mas superficial - comentários sobre o clima, sobre os preparativos para o casamento que se aproximava, sobre tecidos e bordados. Então Elaria, com aquele timing perfeito que ela possuía para mudar atmosferas, mencionou casualmente a tradição musical dos Sedharion.
"Antes da morte de minha mãe," ela disse suavemente, "esta casa vivia de música. Cada membro da família tocava pelo menos um instrumento. Diziam que nossas canções podiam curar feridas da alma."
Seraphine franziu levemente o cenho - ela sabia da proibição de música e aparentemente desaprovava quebras de protocolo. Lyranis levantou os olhos do livro, curiosidade intelectual despertada.
Mas foi Alariel quem respondeu, virando-se da janela com expressão suave e nostálgica.
"Minha família também tinha tradições musicais," ela disse. "Minha avó me ensinou a tocar flauta quando eu tinha seis anos. Ela dizia que música era a linguagem mais antiga, anterior até às palavras."
Os olhos de Elaria brilharam. "Você ainda toca?"
Alariel hesitou, então assentiu. "Trouxe minha flauta na bagagem. É uma das poucas coisas pessoais que insisti em trazer."
"Eu..." Elaria pausou, olhando rapidamente para Seraphine - a mais provável de reportar qualquer quebra de protocolo - então decidiu arriscar. "Eu ainda toco às vezes. Em segredo. A harpa de minha mãe."
Agora até Seraphine parecia interessada, embora tentasse esconder isso atrás de expressão neutra.
"Talvez," Elaria continuou cuidadosamente, "você pudesse trazer sua flauta aqui algum dia. Meus aposentos são bem isolados. Ninguém ouviria."
Alariel sorriu - um sorriso genuíno que transformou completamente seu rosto. "Eu gostaria muito disso."
E assim começou uma tradição secreta. Algumas noites por semana, após o anoitecer quando a casa estava tranquila, Alariel trazia sua flauta até os aposentos de Elaria. As portas eram trancadas, véus pesados colocados contra frestas onde som pudesse escapar, e as duas faziam música juntas.
No início, era apenas elas duas. Mas eventualmente, Lyranis pediu para se juntar - ela revelou que tocava cítara, instrumento de cordas delicado popular entre estudiosos élficos. Até mesmo Seraphine, após semanas resistindo, apareceu uma noite com um pequeno tambor de mão, dizendo apenas "As mulheres Therondil tocam tambores de guerra. Este é... uma versão menor."
Eu descobri sobre essas sessões musicais secretas uma noite quando estava voltando tarde de uma patrulha com minha unidade recém-formada. Passando pelos aposentos de Elaria, ouvi sons abafados - melodias entrelaçadas de harpa, flauta, cítara e percussão suave.
Parei do lado de fora da porta, encostando a cabeça contra a madeira para ouvir melhor. As melodias eram belas - não as canções de combate que eu praticava, mas composições gentis, pacíficas, que falavam de céus estrelados e florestas tranquilas.
Ouvi também risos entre as músicas. Conversas suaves, piadas compartilhadas. Era o som de amizade genuína se formando, de solidão sendo aliviada através de experiência compartilhada.
Não interrompi. Apenas sorri para mim mesmo e continuei andando.
Nos dias seguintes, notei mudança em Alariel. A máscara formal que ela havia usado nos primeiros dias estava gradualmente desaparecendo, substituída por algo mais relaxado, mais genuíno. Ela ria mais facilmente, seus olhos tinham mais vida, sua postura - embora ainda elegante - tinha menos da rigidez de alguém constantemente em guarda.
E ela havia desenvolvido uma amizade genuína com Elaria. As duas passavam horas juntas nos jardins, conversando sobre sonhos, livros e a vida além das expectativas nobres, criando um vínculo que transcendia as formalidades do castelo.
Foi durante um desses passeios pelos jardins que Elaria finalmente me mencionou especificamente.
"Meu irmão é diferente dos outros," ela disse a Alariel enquanto caminhavam entre canteiros de rosas brancas. "Lindyr sempre foi... gentil. Mesmo quando tratado cruelmente, ele nunca desenvolveu crueldade em retorno. É raro."
Alariel considerou isso. "Ele parece... quieto. Observador."
"Ele é," Elaria concordou. "Passou a vida observando de fora, nunca verdadeiramente parte da família. Isso o ensinou a ver coisas que outros perdem."
"E as histórias sobre ele causar a morte de sua mãe?" Alariel perguntou hesitantemente.
Elaria suspirou profundamente. "Ele não causou nada. Ela morreu no parto trazendo-o ao mundo, sim. Mas isso não é culpa dele. É... é simplesmente tragédia. Meu pai e irmãos precisavam de alguém para culpar, e um bebê recém-nascido era o alvo mais fácil."
"Isso é terrivelmente injusto," Alariel disse com convicção real.
"É," Elaria concordou. "Mas talvez agora as coisas mudem. Meu pai finalmente reconheceu o talento de Lindyr. Deu-lhe posição, responsabilidade. E você..." ela olhou significativamente para Alariel, "você poderia ser a chance dele de finalmente ter família verdadeira."
Alariel não respondeu imediatamente, processando as implicações.
"Sem pressão, é claro," Elaria adicionou rapidamente com um pequeno sorriso. "Apenas... dê-lhe uma chance. Conheça quem ele realmente é, não apenas o que as histórias dizem."
"Eu pretendo fazer exatamente isso," Alariel respondeu suavemente.
Quando finalmente a convidei para um passeio pela cidade além da propriedade do clã, ela aceitou com tamanha empolgação que me surpreendeu. Seus olhos literalmente brilharam quando fiz o convite, e ela imediatamente começou a fazer planos sobre o que queria ver.
Era como se tivesse estado esperando por essa oportunidade de escapar dos protocolos rígidos da nobreza, das expectativas constantes, dos olhares julgadores das outras casas nobres que frequentemente visitavam.
Assim que saímos de casa e começamos nosso passeio, ela revelou sua verdadeira personalidade. A máscara de formalidade nobre desapareceu completamente, revelando uma jovem vivaz, inteligente e com um senso de humor afiado. Ela me contou sobre como detestava as reuniões políticas enfadonhas, sobre seus sonhos de viajar pelo mundo, sobre como lia romances de aventura escondida em seu quarto.
Descobri que ela sabia lutar com adaga - habilidade que havia aprendido secretamente com um mestre de armas que subornara para não contar aos pais. "Meu pai achava que eu estava tendo aulas de caligrafia extra," ela disse com um sorriso travesso. "Tecnicamente, não menti. Aprendi a escrever meu nome... na garganta de alvos de treino."
Ri alto com isso, e ela pareceu surpresa e satisfeita por ter provocado tal reação.
Caminhamos pelo mercado da cidade, onde ela insistiu em experimentar comida de rua que nobres normalmente evitavam. Visitamos um ferreiro onde ela fez perguntas técnicas sobre forjamento que surpreenderam o artesão. Paramos em uma livraria pequena onde ela passou uma hora folheando volumes antigos, seus olhos brilhando com cada descoberta.
"Você não é como eu esperava," ela disse eventualmente enquanto nos sentávamos em um banco próximo a uma fonte na praça central.
"No bom sentido ou no mal sentido?" perguntei.
"Definitivamente no bom sentido," ela respondeu com sinceridade. "Eu temia... bem, temia ser casada com alguém como meu pai. Sério, rígido, vendo-me como propriedade ou ferramenta política."
"E eu não sou assim?"
"Você me ouve," ela disse simplesmente. "Quando falo, você realmente ouve. E não apenas ouve - você parece genuinamente interessado. É... refrescante."
"Passei a vida sendo invisível," respondi honestamente. "Aprendi a ver pessoas que outros ignoram. A ouvir o que não é dito em voz alta. Talvez por isso consigo ouvir você verdadeiramente."
Ela ficou em silêncio por um momento, estudando meu rosto.
"A cicatriz," ela disse finalmente, referindo-se a uma pequena marca que eu tinha perto do olho - resultado de um acidente de treino. "Como conseguiu?"
"Treinando," respondi. "Sozinho, sem supervisor. Cometi erros."
"Você treina sozinho?"
Hesitei, então decidi confiar nela. "Tenho treinado secretamente há anos. As técnicas ancestrais de minha família. Minha mãe era mestra nelas."
Seus olhos se arregalaram. "A Aranha de Prata. Ouvi histórias sobre ela mesmo no meu clã."
"Ela era extraordinária," disse suavemente. "E morreu me trazendo ao mundo."
"Elaria me contou," Alariel disse gentilmente. "Sobre como sua família te culpou. Mas também me contou sobre como você continuou mesmo assim. Sobre como você está praticando as técnicas dela, honrando sua memória."
Olhei para ela, surpreso que Elaria havia compartilhado tanto.
"Ela se preocupa com você," Alariel continuou. "E depois de conhecer você... eu entendo por quê. Você merece muito mais do que recebeu desta vida."
Não soube o que dizer a isso.
"Então vamos fazer um acordo," ela disse, virando-se para me encarar completamente. "Sem máscaras entre nós. Sem fingir ser quem não somos. Fomos forçados neste casamento, sim. Mas podemos escolher torná-lo algo real. Algo genuíno."
"Eu gostaria disso," respondi, sentindo algo quente se expandir no meu peito.
"Bom," ela sorriu. "Então me mostre onde você treina. Quero ver essas técnicas lendárias."
Quando vi esse lado dela, apaixonei-me instantaneamente e começamos a construir a melhor relação de minha vida. Nossos encontros diários se tornaram a parte mais preciosa de minha existência. Caminhávamos pelos jardins conversando sobre literatura, filosofia e nossos sonhos para o futuro. Ela me contava sobre a política complexa de seu clã, enquanto eu compartilhava minhas descobertas sobre as posturas de seda.
Alariel mostrou interesse genuíno em meu treinamento e até me ajudou a aperfeiçoar alguns movimentos, oferecendo perspectivas que um treinamento solitário não poderia proporcionar. Sua experiência com adaga lhe dera entendimento de balanço e timing que se aplicava às minhas técnicas de espada.
"Você se move muito linearmente aqui," ela apontou durante uma sessão na clareira da floresta. "Se eu fosse seu oponente, atacaria deste ângulo enquanto você se recupera do golpe."
Ela estava certa. Ajustei a postura, incorporando sua sugestão, e o movimento ficou significativamente mais fluido.
"Como você sabe tanto sobre combate?" perguntei, impressionado.
"Meu clã pode ser rival do seu, mas também tem tradições antigas," ela respondeu. "E diferente do seu pai, o meu acreditava que todas as suas crianças deveriam saber se defender. Mesmo as filhas."
Foi durante uma dessas sessões de treino que algo extraordinário aconteceu. Eu estava executando "Entrelaçamento Eterno" - a técnica mais complexa - cantando a melodia purificada enquanto minha espada dançava. Alariel observava sentada numa pedra próxima.
Quando terminei a sequência, ela estava me olhando com expressão estranha.
"Lindyr," ela disse suavemente, "você sabe que havia fios prateados ao redor de você?"
Congelei. "Você viu?"
"Vi," ela confirmou, levantando-se e caminhando até mim. "Fios de luz prateada, como teias brilhantes tecendo ao redor de seus movimentos. Duraram apenas segundos, mas estavam lá. Eu vi."
Meu coração disparou. Se ela havia visto, significava que não eram alucinações ou imaginação. Os fios eram reais. A conexão estava se reconstruindo.
"As histórias sobre os Sedharion," Alariel continuou, "falam sobre fios místicos de seda. Pensei que fossem lendas exageradas, mas..."
"Eram reais," completei. "São reais. Minha mãe estava tentando restaurar essa conexão antes de morrer. E eu estou continuando o trabalho dela."
Alariel segurou minhas mãos, seus olhos verdes brilhando com excitação e admiração. "Você está fazendo algo extraordinário, Lindyr. Algo que pode mudar tudo para sua família."
"Talvez," respondi, apertando suas mãos. "Mas não estou fazendo apenas pela família. Estou fazendo porque... porque preciso. Porque sinto que é meu destino completar o que ela começou."
"Então eu vou ajudar," ela declarou com convicção. "De qualquer forma que puder."
E ela ajudou. Nos dias seguintes, Alariel tornou-se minha parceira de treino, minha consultora, minha motivação. Sua presença tornava cada sessão melhor, cada descoberta mais significativa.
À noite, quando retornávamos à propriedade, fingíamos o decoro apropriado de noivos arranjados. Mas nos jardins, na floresta, longe de olhos julgadores, éramos simplesmente nós mesmos. E eu estava me apaixonando mais profundamente a cada dia.
Quando completei dezenove anos, meu pai já havia iniciado os preparativos para o casamento. A propriedade fervilhava com atividade: floristas de todas as regiões élficas chegavam com arranjos exóticos, cozinheiros especialistas preparavam banquetes que alimentariam centenas de convidados, e alfaiates trabalhavam dia e noite em trajes cerimoniais. O casamento não seria apenas uma união entre duas pessoas, mas um evento político que selaria a paz entre dois clãs poderosos que haviam derramado sangue um do outro por décadas.
Fiquei em choque positivo, percebendo que talvez tivesse um futuro naquela casa. Estava tão feliz que mal conseguia acreditar em minha sorte. Após dezenove anos de isolamento e rejeição, eu finalmente teria algo meu - uma esposa, uma posição, talvez até uma família própria.
Quando fui verificar como estavam os preparativos em um dos salões sendo decorados, encontrei Alariel extremamente ansiosa, conferindo obsessivamente cada detalhe, embora o casamento ainda estivesse a um mês de distância. Ela verificava as decorações florais repetidas vezes, questionava os músicos sobre suas apresentações - meu pai havia permitido música especificamente para o casamento, uma concessão rara - e parecia incapaz de relaxar mesmo por um momento.
Ela examinava cada vela, cada arranjo de flores, cada pedaço de tecido que decoraria o salão. Seus dedos tremiam ligeiramente enquanto ajustava uma fita que já estava perfeitamente posicionada. Sua ansiedade era tão intensa que começou a me preocupar.
Questionei-a sobre o motivo de tamanha nervosidade, considerando que ainda tínhamos tempo de sobra.
"Alariel, o casamento só será daqui a um mês. Temos tempo para ajustar qualquer coisa que não esteja perfeita."
Quando disse isso, ela se virou para mim com lágrimas nos olhos e pediu para que eu me sentasse ao seu lado num dos bancos decorativos que haviam sido colocados no salão. Meu coração começou a acelerar - reconheci a expressão em seu rosto, aquela vulnerabilidade que ela só mostrava quando algo muito importante estava acontecendo.
"Lindyr," ela começou, sua voz tremendo ligeiramente, "preciso te contar algo."
Perguntei se havia acontecido algo, se alguém a havia ofendido ou se seu clã estava causando problemas com os preparativos. Mil possibilidades ruins correram pela minha mente.
Ela respirou fundo, lágrimas escorrendo silenciosamente por suas bochechas, e revelou: "Estou grávida. De um filho seu."
Congelei completamente diante dela, sem conseguir encontrar palavras. Minha mente processava a informação em câmera lenta: seria pai. Teria uma família. Seria responsável por uma nova vida. A magnitude dessa realidade me deixou temporariamente mudo, como se alguém tivesse roubado minha capacidade de falar.
O mundo ao meu redor pareceu desacelerar. Ouvi meu próprio coração batendo forte nos ouvidos. Grávida. Alariel estava grávida. Teríamos um filho.
Alariel ficou até irritada comigo por eu não ter dito nada imediatamente. Seus olhos se encheram de mais lágrimas de frustração e medo, e pude ver que minha falta de reação estava sendo interpretada como rejeição, como choque negativo ao invés de positivo.
"Lindyr, diga alguma coisa," ela sussurrou, sua voz quebrando. "Qualquer coisa. Você está... você está feliz? Com raiva? Eu sei que não planejamos isso, que aconteceu antes do casamento, mas eu—"
Quando finalmente recuperei a consciência, virei-me para ela e a abracei com toda a força que tinha, interrompendo seu fluxo ansioso de palavras. Segurei-a contra mim como se fosse a coisa mais preciosa do mundo - porque era exatamente isso.
"Seremos pais incríveis," disse com convicção absoluta, minha própria voz embargada de emoção. "Você será uma mãe maravilhosa, e eu... eu vou fazer tudo ao meu alcance para ser o pai que essa criança merece."
Senti seu corpo relaxar em meus braços, a tensão se dissolvendo lentamente.
"E não precisamos nos preocupar," continuei afastando-me ligeiramente para olhar em seus olhos. "Podemos nos casar tranquilamente sem que ninguém descubra que você já estava grávida. Um mês não fará diferença visível, e depois... depois será apenas nosso filho chegando um pouco mais cedo que o esperado."
Ela assentiu, limpando as lágrimas com as costas da mão. "Eu estava tão assustada de te contar. Pensei que talvez você ficasse furioso, ou que achasse que eu estava te prendendo, te forçando em algo que—"
"Alariel," interrompi gentilmente, segurando seu rosto entre minhas mãos. "Desde que te conheci, o mundo começou a ter cor para mim. Antes de você, minha vida era apenas... existência. Sem propósito, sem alegria, sem futuro. Mas você mudou tudo. E agora... agora teremos uma família. Nossa família."
Ela se acalmou em meus braços e concordou, confidenciando que desde que me conhecera, o mundo havia começado a ter cor para ela também. "Antes de te encontrar," ela sussurrou contra meu peito, "minha vida havia sido apenas serviço aos líderes de meu clã. Uma peça no tabuleiro político deles. Uma ferramenta para alianças. Não tinha vida própria, não tinha escolhas próprias. Era apenas... uma função a ser cumprida."
Eu pensava exatamente da mesma forma sobre minha própria vida. Desde meu nascimento, fora constantemente lembrado de que nunca seria alguém importante no clã, que meu destino seria ser apenas uma sombra da casa, um lembrete constante de tragédia. Não via nada de bom na vida - apenas Elaria conseguia levantar meu ânimo ocasionalmente com sua bondade persistente.
Mas quando conheci Alariel, a vida começou a ter sabor verdadeiro, propósito e esperança. Não era apenas sobre não estar mais sozinho - era sobre finalmente ter alguém que me via, realmente me via, não através do prisma de culpa e tragédia, mas como eu realmente era.
Apenas a confortei enquanto ela chorava em meus braços, agora lágrimas de alívio ao invés de medo. Ela segurou minha túnica com força, como se temesse que eu pudesse desaparecer se me soltasse.
"Promete que jamais me abandonará?" ela pediu, sua voz pequena e vulnerável de uma forma que ela raramente permitia que outros vissem. "Promete que quando as coisas ficarem difíceis, quando meu clã ou seu clã criarem problemas, quando houver pressão política ou expectativas impossíveis... promete que ficará ao meu lado?"
Jurei em voz alta que jamais a abandonaria, que dali a um mês seríamos uma família completa - nós três. "Eu prometo solenemente," disse, minha voz carregada de convicção, "que não importa o que aconteça, não importa que tempestades venham, eu estarei ao seu lado. Você e nossa criança são minha família agora. Minha verdadeira família. E eu protegerei isso com cada respiração em meu corpo."
Naquele momento, senti pela primeira vez que minha vida tinha um propósito maior do que apenas existir à sombra de minha tragédia de nascimento. Não era mais apenas sobre honrar a memória de minha mãe continuando seu trabalho com as canções purificadas. Não era mais apenas sobre provar meu valor para um pai que havia me rejeitado por dezoito anos.
Era sobre construir algo novo. Algo meu. Uma família que eu escolheria amar e proteger, não por obrigação ou sangue, mas por escolha genuína.
Passamos o resto daquela tarde juntos no salão de preparativos, mas não mais verificando decorações. Apenas sentados juntos, minha mão repousando gentilmente sobre sua barriga ainda plana, falando sobre o futuro.
"Menino ou menina?" Alariel perguntou eventualmente, um pequeno sorriso tocando seus lábios.
"Não importa," respondi honestamente. "Apenas que seja saudável. E amado. Muito amado."
"Se for menina," ela disse pensativamente, "gostaria de ensiná-la a lutar. Para que nunca seja indefesa, nunca seja apenas uma peça no tabuleiro político de outra pessoa."
"E eu vou ensinar as canções," adicionei. "As canções purificadas que minha mãe desenvolveu. Para que ela cresça conhecendo a versão pura de nossa herança, não a versão corrompida."
"E se for menino?"
"O mesmo," disse firmemente. "Filho ou filha, essa criança crescerá sabendo que é amada, que tem valor próprio, que pode escolher seu próprio caminho. Não importa o que nossa família ou clãs digam."
Alariel se inclinou contra mim. "Você será um pai maravilhoso."
"Terei um bom exemplo do que não fazer," respondi com um toque de humor amargo. "Meu pai me ensinou muitas lições - principalmente sobre como não tratar uma criança."
"Então quebraremos o ciclo," ela disse com determinação. "Nossa criança nunca sentirá a rejeição que você sentiu. Nunca se perguntará se é amada. Nunca carregará culpa por simplesmente existir."
Fizemos planos naquela tarde. Planos sobre como criaríamos nosso filho. Sobre os valores que ensinaríamos. Sobre o tipo de vida que queríamos construir juntos.
"Quando a guerra com os demônios terminou," eu disse eventualmente, "a Terra ficou fragmentada. Cicatrizada. Mas a vida continuou. Coisas novas cresceram dos escombros. E talvez... talvez seja isso que estamos fazendo. Crescendo algo novo e belo dos escombros de nossas próprias tragédias."
"Que poético," Alariel riu suavemente. "Não sabia que você tinha alma de bardo."
"Passo muito tempo com livros," respondi com um sorriso. "Algo tinha que influenciar."
Nos dias seguintes, mantivemos o segredo cuidadosamente. Alariel começou a usar vestidos ligeiramente mais soltos, embora ainda não houvesse necessidade real - era mais precaução que necessidade. Elaria notou algo diferente quase imediatamente, aquela intuição feminina que parecia permitir que ela lesse mudanças sutis em comportamento.
"Você está radiante," ela comentou com Alariel durante um de seus passeios pelos jardins. "Há algo diferente em você."
Alariel e eu havíamos discutido se deveríamos contar a Elaria. Decidimos que sim - ela era nossa aliada mais confiável, e teríamos melhor chance de manter o segredo com sua ajuda.
"Elaria," Alariel disse eventualmente, verificando que estavam verdadeiramente sozinhas, "posso confiar em você com um segredo? Um grande segredo?"
"Sempre," Elaria respondeu imediatamente.
"Estou grávida."
Os olhos de Elaria se arregalaram, então ela abraçou Alariel com força. "Oh, por todos os deuses! Isso é maravilhoso! Lindyr sabe?"
"Sabe," Alariel confirmou. "E está feliz. Mas precisa permanecer secreto até depois do casamento. Se alguém descobrir que engravidei antes dos votos..."
"Haveria escândalo," Elaria completou, entendendo imediatamente. "Ambos os clãs poderiam usar isso como desculpa para questionar a aliança. Políticos adoram encontrar motivos para complicar acordos de paz."
"Exatamente."
"Então manteremos segredo," Elaria disse firmemente. "Eu vou ajudar. Com tudo que precisarem."
E ela ajudou. Elaria tornou-se nossa cúmplice, nossa protetora. Ela garantia que Alariel tivesse acesso discreto às ervas que ajudavam com náuseas matinais. Ajustava o guarda-roupa de Alariel conforme necessário. E mais importante, fornecia cobertura quando Alariel precisava de tempo para descansar ou quando os sintomas iniciais da gravidez se tornavam difíceis de esconder.
Um mês passou surpreendentemente rápido. Os preparativos foram finalizados. Convidados começaram a chegar - representantes de outros clãs élficos, alguns dignitários humanos de reinos vizinhos que mantinham relações comerciais conosco, até mesmo alguns representantes de raças menores que viam a aliança Sedharion-Elenwëar como potencialmente benéfica para a estabilidade regional.
A tensão era palpável. Décadas de hostilidade não desapareciam simplesmente porque um casamento estava acontecendo. Membros dos dois clãs se observavam com suspeita mal disfarçada. Mãos permaneciam sempre próximas de armas. Cada conversa era cuidadosamente diplomática, cada palavra pesada antes de ser pronunciada.
Mas o casamento aconteceria. A paz seria selada. E eu teria minha família.
No dia do casamento, todos de nosso clã e do clã de Alariel estavam presentes na festa, aparentemente tranquilizados com o fim da rixa que perdurava há longos anos. O grande salão havia sido transformado num espetáculo de beleza e diplomacia que deveria ter sido impossível considerando a história sangrenta entre nossos povos.
Bandeiras dos dois clãs tremulavam harmoniosamente lado a lado - os estandartes prateados e negros dos Sedharion ao lado dos verdes e dourados dos Elenwëar. Representantes de outras casas nobres observavam com aprovação cuidadosa, claramente aliviados que dois clãs poderosos estavam finalmente fazendo paz ao invés de continuar enfraquecendo um ao outro através de conflito.
Mercadores importantes haviam sido convidados para testemunhar o evento histórico - afinal, rotas comerciais que haviam sido perigosas por décadas devido ao conflito poderiam agora ser reabertas. Havia potencial econômico significativo nesta paz, e todos os presentes reconheciam isso.
O salão estava decorado com uma magnificência que eu nunca havia visto antes. Flores élficas raras - algumas que só floresciam uma vez a cada década - haviam sido cultivadas especialmente para este dia. Cristais suspensos do teto refratavam luz em arco-íris através do espaço. Músicos de ambos os clãs haviam sido posicionados estrategicamente, seus instrumentos criando uma harmonia que simbolizava a união que estávamos celebrando.
As mesas estavam carregadas com iguarias de toda a região - não apenas comida élfica tradicional, mas também pratos humanos para os convidados de reinos vizinhos, mostrando que esta aliança tinha implicações além de apenas nossos dois clãs.
Antes que os convidados se acomodassem completamente para a cerimônia, meu pai me chamou para proceder com os preparativos finais. Em meu quarto, eu me vestia nas roupas cerimoniais que haviam sido preparadas - túnica de seda preta com bordados prateados que representavam teias, simbolizando minha herança Sedharion.
Eu me sentia estranhamente tranquilo sobre esse grande passo. Não havia nervosismo, não havia dúvida. Apenas uma certeza calma e profunda de que estava fazendo a coisa certa. Contemplava como minha vida mudaria drasticamente: dividiria tudo com Alariel, dominaria completamente a postura da espada continuando o trabalho de minha mãe, teria um filho próprio para criar e amar, e finalmente teria um lugar na mesa dos líderes do clã.
Pela primeira vez em minha vida inteira, o futuro parecia brilhante e cheio de possibilidades infinitas. Não era mais uma existência definida por tragédia passada, mas uma vida que eu estava ativamente construindo, escolha por escolha.
Olhei para meu reflexo no espelho - um jovem elfo de dezenove anos, cabelos negros escovados cuidadosamente, olhos que finalmente continham esperança ao invés de apenas resignação. A pequena cicatriz perto do meu olho, resultado de treino solitário, era agora apenas parte de quem eu era - não uma marca de vergonha, mas evidência de determinação.
No momento em que me direcionava ao salão, deparei-me com uma dúzia de guardas de meu clã subindo às posições elevadas nas galerias superiores do salão com arcos e bestas. Inicialmente ignorei essa movimentação militar, presumindo que fosse apenas uma medida de segurança adicional para um evento tão importante e politicamente delicado.
Afinal, fazia sentido. Dezenas de pessoas de dois clãs historicamente hostis estariam reunidas no mesmo espaço. Tensões poderiam explodir. Um assassinato oportunista de algum extremista que se opunha à paz poderia desencadear o caos. Precauções eram lógicas.
Mas então, quando me virei para continuar em direção ao salão, senti um aperto devastador no peito - um pressentimento terrível que me fez questionar se deveria prosseguir. Era como se algo primitivo dentro de mim, algum instinto ancestral, estivesse gritando um aviso que minha mente consciente não conseguia processar.
Parei no corredor, minha mão contra a parede de pedra, tentando entender de onde vinha essa sensação súbita de pavor. Meu coração batia irregularmente. Suor frio começou a se formar em minha testa apesar da temperatura agradável.
Algo estava errado. Profundamente, terrivelmente errado.
Mas o quê? Olhei ao redor, procurando qualquer coisa concreta que pudesse justificar este medo súbito. Vi apenas servos correndo para lá e para cá com preparativos de última hora, convidados rindo e conversando, tudo aparentemente normal.
Talvez fosse apenas nervosismo finalmente me alcançando, pensei. Afinal, era meu dia de casamento. Um evento que mudaria minha vida para sempre. Nervosismo era natural, mesmo que atrasado.
Respirei fundo, forçando meus pés a se moverem. Alariel estava esperando. Nossa família estava esperando ser criada. Eu não podia deixar que pressentimentos irracionais arruinassem isso.
Quando cheguei diante de meu pai no salão, ele estava posicionado no altar cerimonial, vestindo suas próprias roupas formais - túnica de comandante do clã decorada com insígnias de suas conquistas militares. Ele perguntou se eu estava bem, aparentemente notando algo em minha expressão.
"Estou bem," confirmei, forçando firmeza em minha voz. "Apenas... é um grande dia."
"É," ele concordou com algo que poderia ter sido orgulho em sua voz. "Você está fazendo seu clã orgulhoso, Lindyr."
Lindyr. Não "o filho que matou Meliam". Não "o inútil". Apenas meu nome, dito com respeito.
Perguntei onde estava Alariel, ansioso para vê-la, como se sua presença pudesse dissipar o mal-estar que eu sentia.
"Ela está se preparando com as damas," meu pai respondeu. "Virá em breve."
A cerimônia começou com toda a pompa tradicional. Cânticos ancestrais élficos encheram o salão - melodias que datavam de antes da guerra com os demônios, quando nosso povo ainda era jovem e não-manchado por conflito. Incensos sagrados foram queimados - ervas raras que produziam fumaça prateada que supostamente carregava orações aos deuses.
Os anciãos de ambos os clãs se posicionaram ao redor do altar, cada um segurando um elemento simbólico: terra de propriedades de ambos os clãs, água de rios que corriam através de nossos territórios, fogo de lareiras ancestrais, e ar capturado em frascos de cristal durante amanheceres significativos.
As bênçãos rituais dos anciãos foram pronunciadas em élfico antigo, palavras que poucos dos presentes provavelmente compreendiam completamente, mas que carregavam peso de tradição e história. Cada ancião abençoou a união, invocando proteção divina, prosperidade, fertilidade - ironicamente, algo que Alariel e eu já havíamos garantido - e paz duradoura entre nossas casas.
Então, finalmente, Alariel avançou pelo corredor central.
Ela estava radiante em seu vestido de noiva élfico - seda branca que parecia capturar e refletir luz de maneiras impossíveis, bordada com fios verdes e dourados que representavam seu clã Elenwëar. Seu cabelo ruivo escuro havia sido trançado com pequenas flores brancas, e ela usava o véu tradicional - translúcido o suficiente para que eu pudesse ver seu rosto, mas simbólico da transição que ela estava fazendo de uma casa para outra.
Ela caminhava acompanhada por seu pai - Lord Carenthor dos Elenwëar - um elfo alto e severo cuja expressão era cuidadosamente neutra mas cujos olhos traíam desconforto óbvio em estar entregando sua filha a um Sedharion.
Mas quando olhei nos olhos de Alariel, percebi algo que me perturbou profundamente - uma mistura de amor e tristeza que não consegui interpretar completamente. Havia felicidade ali, sim, genuína e verdadeira. Mas também havia algo mais - algo que parecia quase como... despedida?
Meu mal-estar retornou triplicado. Por que ela estaria olhando para mim dessa forma? Como se estivesse me memorizando, gravando cada detalhe de meu rosto como se fosse a última vez?
Tentei perguntar com os olhos se estava tudo bem. Ela assentiu minimamente, mas a tristeza não diminuiu.
Lord Carenthor entregou a mão de Alariel à minha com um aperto firme - quase doloroso - como um aviso final de um pai protegendo sua filha. Então ele recuou, juntando-se aos outros Elenwëar.
Meu pai realizou os votos tradicionais com voz clara e autoridade. O salão havia ficado silencioso, todos os olhos em nós.
"Lindyr Sedharion," ele começou formalmente, "você aceita Alariel Elenwëar como sua esposa legítima? Promete honrá-la, protegê-la, e manter sagrados os votos que hoje faz perante testemunhas divinas e mortais? Aceita todas as responsabilidades que este casamento traz - unir dois clãs, manter a paz, e construir futuro compartilhado?"
Quando perguntou se eu aceitaria todas as responsabilidades do casamento, aceitei sem hesitar. "Aceito," disse claramente, minha voz ressoando pelo salão silencioso. "Aceito completamente e sem reservas."
Meu pai assentiu aprovadoramente, então se virou para Alariel com a mesma pergunta formal.
"Alariel Elenwëar," ele disse, "você aceita Lindyr Sedharion como seu esposo legítimo? Promete honrá-lo, apoiá-lo, e manter sagrados os votos que hoje faz perante testemunhas divinas e mortais? Aceita todas as responsabilidades que este casamento traz?"
Alariel me olhou nos olhos. Naquele momento, vi lágrimas se formando. Vi amor absoluto e incondicional. E vi desculpa - por quê desculpa?
E no exato momento em que ela começou a falar, no preciso instante em que a palavra "Aceito" estava formando em seus lábios...
...ela foi alvejada por uma chuva de flechas vindas de cima, perfurando todas as partes de seu corpo.
O tempo pareceu desacelerar grotescamente. Vi cada flecha individualmente - pontas de metal afiadas atravessando através de seu vestido de noiva branco, tingindo seda com vermelho que se espalhava impossível mente rápido. Uma atravessou seu ombro. Outra seu peito. Outra seu abdômen - onde nosso filho ainda não nascido crescia.
O som foi horrível - thunk, thunk, thunk - madeira e metal penetrando carne com eficiência brutal.
Alariel arfou, seus olhos se arregalando com choque e dor. Sangue começou a escorrer de sua boca. Suas mãos se moveram instintivamente para seu estômago - não para suas próprias feridas, mas protegendo onde nosso bebê estava.
"Lin...dir..." ela sussurrou, sangue borbulhando através de suas palavras.
Então suas pernas falharam e ela desabou.
Eu a peguei antes que atingisse o chão, caindo de joelhos com ela em meus braços. "Alariel! ALARIEL!" Minha voz era desesperada, quebrando, não soando como minha própria voz.
Seu vestido de noiva branco estava agora predominantemente vermelho. Sangue élfico - mais brilhante que humano, com quase uma qualidade prateada - se espalhou pelo chão de mármore do salão, criando um contraste grotesco com as decorações festivas.
No instante em que ela desabou no chão em meus braços, membros de meu clã iniciaram o plano que meu pai havia arquitetado. Todos os Sedharion presentes - todos aqueles em quem eu havia confiado, que eu havia servido como capitão, que haviam me cumprimentado naquela manhã com sorrisos e bênçãos - atacaram os membros do clã Elenwëar indefesos, sem qualquer misericórdia.
O massacre foi brutal e coordenado com precisão militar. Isso não era caos espontâneo - era uma operação planejada cuidadosamente.
Os Elenwëar, desarmados conforme protocolo cerimonial exigia - afinal, quem traz armas para um casamento? - e vestidos em trajes formais que ofereciam zero proteção, não tiveram chance alguma contra o ataque surpresa. Eles haviam vindo confiando na santidade de votos matrimoniais, na palavra de paz dada por ambos os clãs.
E foram abatidos como gado para massacre.
Guardas Sedharion que haviam sido estrategicamente posicionados continuaram atirando das galerias superiores. Guerreiros que haviam estado escondidos entre os "servos" revelaram armas escondidas sob roupas. Portas do salão foram seladas, impedindo fuga.
Os gritos de terror ecoaram pelas paredes decoradas. Lord Carenthor - o pai de Alariel - tentou alcançar sua filha morrendo mas foi derrubado por três flechas antes de dar cinco passos. Ele caiu de frente, seus olhos ainda fixos em Alariel, morrendo sem poder tocá-la uma última vez.
Anciãos Elenwëar que momentos antes haviam estado oferecendo bênçãos foram cortados onde ficavam. Jovens guerreiros tentaram lutar de mãos vazias contra espadas e foram despedaçados. Mulheres tentaram proteger crianças que haviam sido trazidas para testemunhar o "evento histórico de paz" e foram mortas junto com elas.
O sangue élfico manchou o chão de mármore do salão, criando poças que refletiam luz de cristais acima como espelhos carmesim. O cheiro de ferro e morte substituiu o perfume doce de flores cerimoniais.
E eu segurava Alariel, chamando seu nome desesperadamente, mesmo sabendo que ela havia partido. Suas mãos ainda estavam contra seu estômago, tentando proteger nosso filho até o último momento. Seus olhos verdes - olhos que haviam me olhado com amor apenas segundos atrás - estavam vazios agora, a luz neles extinta.
"Não, não, não, não..." eu repeti como mantra sem sentido, segurando-a contra mim, sua cabeça apoiada contra meu peito. Meu corpo tremia violentamente. "Alariel, por favor, não me deixe, não me deixe sozinho, não..."
Sangue dela manchou minhas roupas cerimoniais. As mesmas roupas que eu havia vestido imaginando um futuro feliz.
Solucei incontrolavelmente, consumido pelo desespero, quando meu pai se aproximou de mim. Eu nem havia percebido ele se mover.
Com um sorriso cruel - uma expressão que eu nunca tinha visto em seu rosto antes, algo que beirava prazer sádico - disse que estava bastante orgulhoso. Que eu a havia enganado perfeitamente. Que minha performance como noivo apaixonado havia sido convincente o suficiente para baixar completamente as defesas dos Elenwëar.
As palavras levaram um momento para processar. Enganado? Performance?
Meu pai riu - uma risada fria e amarga - e me perguntou se eu realmente achava que teria felicidade naquele lugar. "Você realmente pensou que eu esqueceria? Que perdoaria?" Então revelou todo seu ódio acumulado, veneno que havia estado guardando por dezenove anos.Desde o dia do meu nascimento ele me detestara por ter matado a mulher da vida dele. Meliam - a única pessoa que ele jamais amou verdadeiramente - havia morrido por minha causa. E ele jamais perdoaria isso, nunca em mil anos. Cada vez que olhava para mim, via o filho que havia trocado pela mãe. Um comércio que ele nunca teria escolhido fazer.
"O reconhecimento?" ele continuou, voz gotejando veneno. "O posto na guarda? O 'orgulho'? Tudo era teatro, garoto. Necessário para fazer os Elenwëar acreditarem que esta aliança era genuína. Você foi a isca perfeita - o filho rejeitado finalmente recebendo aceitação. Que história comovente. Eles engoli ram completamente."
Disse que queria muito me matar naquele instante, que sonhava com isso. Mas que não valeria a pena - me matar seria misericórdia que eu não merecia. Eu teria que sofrer sabendo que perdi o amor da minha vida bem na minha frente sem poder fazer nada. Teria que viver com essa culpa, essa dor, esse conhecimento de que havia sido instrumento da morte dela.
"Você vai viver," ele cuspiu, "e cada dia dessa vida será tormento . Cada respiração será lembrança do que você ajudou a destruir."
Antes que eu pudesse responder, antes que pudesse processar completamente a magnitude dessa traição, meu irmão Ionar se aproximou por trás.
Com um movimento rápido e brutal, ele desembainhou sua arma - uma lâmina curva que ele sempre havia favorecido - e golpeou meu rosto com força, rasgando profundamente meu olho esquerdo.
A dor foi lancinante, explosiva. Senti o metal cortando através da pele, através de músculo, muito próximo do olho propriamente dito. Sangue jorrou profusamente, minha visão do lado esquerdo imediatamente ficou vermelha e borrada. Uma cicatriz brutal começava a se formar - ferida que arderia pelo resto da minha vida, marcando-me permanentemente como traidor aos olhos de todos que conhecessem a história.
Minha visão não foi completamente destruída - Ionar havia mirado com precisão suficiente para causar dor máxima e cicatriz permanente sem completamente cegar o olho - mas o dano era severo. Sangue escorria pelo meu rosto, misturando-se com o sangue de Alariel que já me cobria.
"Isso é para anos de você existir quando não deveria," Ionar cuspiu com veneno. "Para ocupar espaço que deveria ter permanecido vazio quando mamãe morreu."
Ionar então me golpeou na nuca com o cabo da arma - um golpe calculado para desabilitar sem matar - fazendo-me desmaiar enquanto o mundo ao meu redor se tornava escuridão.
A última coisa que vi antes de perder consciência foi o rosto de Alariel, seus olhos vazios ainda abertos, olhando para algo que eu não podia ver. E a última coisa que senti foi o peso de nosso filho nunca nascido, morto antes de ter chance de respirar. Então, apenas escuridão.
Dias se passaram após aquele massacre. Eu estava sem qualquer fé no mundo, sem esperança de continuar, decidindo acabar com tudo ali mesmo naquela cela fétida onde me jogaram. As paredes úmidas da masmorra pareciam fechar-se ao meu redor, e o cheiro de mofo e desespero impregnava cada respiração.
Minha ferida no rosto havia sido tratada apenas o suficiente para prevenir infecção fatal - não por bondade, mas porque meu pai queria que eu vivesse para sofrer. A cicatriz estava se formando, irregular e brutal, atravessando meu olho esquerdo como lembrete permanente. Minha visão daquele lado era turva, distorcida, mas funcional o suficiente para que eu pudesse ver o mundo que havia me traído.
Revivia constantemente o momento em que Alariel caíra. O sangue manchando seu vestido de noiva. Seus olhos verdes perdendo o brilho da vida. Suas mãos protegendo nosso filho até o último momento. A cena tocava repetidamente em minha mente como pesadelo do qual não podia acordar.
Nosso filho. Nem mesmo tivemos chance de discutir nomes. Menino ou menina, nunca saberia. A criança havia morrido antes de poder respirar, antes de poder sentir luz do sol, antes de poder ouvir as canções purificadas que eu havia prometido ensinar.
A culpa era esmagadora. Meu pai tinha razão - eu havia sido o instrumento da morte dela. Minha existência, minha estúpida esperança por felicidade, havia sido a isca que atraiu os Elenwëar para massacre. Se eu nunca tivesse nascido, se minha mãe tivesse sobrevivido ao parto, nada disso teria acontecido.
Alariel ainda estaria viva. Nosso filho ainda estaria crescendo seguro em seu ventre. Os Elenwëar não teriam sido traídos. Centenas de elfos inocentes não teriam sido massacrados em chão consagrado.
Tudo por minha culpa.
Encontrei um fragmento de metal solto na parede da cela - talvez parte de alguma corrente antiga que havia enferrujado. Afiado o suficiente. Olhei para ele por horas, peso de decisão pressionando contra meu peito.
Seria fácil. Rápido. E finalmente, finalmente, a dor pararia.
Antes que eu pudesse executar meu plano desesperado, ouvi sons de alguém se aproximando. Passos apressados, sussurros urgentes. Depois, o som de chaves tilintando enquanto alguém procurava a correta.
Minha irmã Elaria chegou, procurando freneticamente a chave de minha cela entre o molho que havia roubado dos guardas. Seus olhos estavam vermelhos de tanto chorar, seu rosto pálido de horror e culpa.
Questionei por que ela fazia isso, minha voz rouca de desuso e desespero. Alertei que poderia se complicar se fosse descoberta. Que nosso pai não teria misericórdia, mesmo com sua filha favorita, se descobrisse que ela me ajudou.
Ela respondeu que estava tudo bem, que resolveria qualquer problema que surgisse. Sua voz tremia mas havia determinação absoluta nela. "Eu não me importo com consequências, Lindir. Não posso... não posso deixar você aqui."
Quando abriu a porta, ela abraçou-me fortemente, soluçando contra meu peito. "Eu não sabia," ela chorou repetidamente. "Juro por todos os deuses, eu não sabia que pai faria algo tão monstruoso. Se eu soubesse, teria avisado, teria feito algo, qualquer coisa..."
Suas palavras eram sinceras. Eu conhecia minha irmã bem o suficiente para saber quando ela mentia, e isto não era mentira. Ela realmente não sabia.
Disse-lhe que ela não tinha como saber - nosso pai conhecia a proximidade entre nós, sabia que se ela soubesse de algo, certamente me contaria. Por isso ele a manteve no escuro tanto quanto manteve a mim. Éramos ambos peças em seu tabuleiro, jogadas sem nosso conhecimento ou consentimento.
"Alariel era minha amiga," Elaria soluçou. "Nós... nós tocávamos música juntas. Ela me contou sobre o bebê, sobre como vocês eram felizes. E eu... eu fui parte de fazer ela confiar, de fazer ela acreditar que estaria segura aqui."
"Você não sabia," repeti firmemente, segurando seus ombros. "Isso não é sua culpa, Elaria. A culpa é de nosso pai. E minha, por ser tolo o suficiente para acreditar que poderia ter felicidade."
Ela me soltou, ainda chorando, mas forçando-se a se concentrar. "Temos que partir imediatamente. Os guardas mudam turno em menos de uma hora. Esta é nossa única janela."
Ela me mostrou um caminho que havia descoberto - uma passagem antiga que levava aos esgotos sob a propriedade. Aparentemente havia túneis de serviço construídos séculos atrás durante a guerra com os demônios, quando refúgios subterrâneos eram necessidade. Muitos haviam sido selados ou esquecidos, mas Elaria havia encontrado mapas antigos na biblioteca e explorado até achar uma rota viável.
"Eu planejei isso desde que soube o que pai fez," ela explicou enquanto me guiava através de corredores escuros e úmidos. "Não podia deixar você morrer aqui. Não depois de tudo."
Quando chegamos à saída - um bueiro escondido numa seção abandonada da propriedade, onde muros antigos haviam desmoronado - ela parou e se virou para mim.
De uma bolsa que carregava, ela retirou três itens embrulhados cuidadosamente.
O primeiro era a espada de nossa mãe - Silmareth, a lâmina elegante e alongada com seu design distintivo. A aranha estilizada na guarda parecia brilhar fracamente mesmo na escuridão do túnel.
"Eu roubei do quarto de pai," Elaria sussurrou. "Levou três tentativas, mas consegui. Esta espada é sua por direito. Mamãe teria querido que você a tivesse."
O segundo item era o livro - "A Dança da Espada de Seda" - que eu havia roubado da biblioteca proibida tanto tempo atrás. Todas as anotações de minha mãe, todas as canções purificadas, todas as posturas detalhadamente descritas.
"Você deixou em seu quarto," Elaria explicou. "Eu escondi antes que alguém mais pudesse encontrar."
O terceiro item me surpreendeu - era uma flauta de madeira ancestral, belamente esculpida com padrões de vinhas e folhas. Reconheci-a imediatamente como a que Elaria tocava durante as sessões musicais secretas com Alariel.
"Esta flauta foi da nossa mãe também," Elaria disse suavemente, suas mãos tremendo enquanto a segurava. "Ela a tocava quando estava grávida de você. Dizia que você chutava em resposta às melodias, como se já pudesse ouvir e apreciar a música."
Lágrimas escorreram pelo rosto dela enquanto ela colocava a flauta em minhas mãos. "Eu... eu queria guardá-la comigo, porque era tudo que me restava das noites em que tocávamos juntas, eu e Alariel. Mas você precisa dela mais do que eu. Precisa de algo para lembrar que nem toda música neste mundo termina em tragédia. Que houve amor, houve alegria, houve momentos de beleza pura."
Sua voz quebrou completamente. "Alariel amava quando eu tocava esta flauta. Ela dizia que o som era como luz do sol atravessando folhas de árvores. Agora... agora ela se foi, e não posso suportar ouvir este som sem pensar nela. Mas talvez você possa. Algum dia. Quando a dor não for tão aguda."
Segurei os três itens, seu peso tanto físico quanto simbólico esmagador. A espada de minha mãe - representando o legado marcial que eu havia herdado. O livro - contendo todo o conhecimento que ela havia passado décadas compilando e purificando. E agora a flauta - símbolo da tradição musical que definia nossa família, e lembrança tangível tanto de Meliam quanto de Alariel.
"Elaria, eu não posso aceitar isso," comecei, tentando devolver a flauta. "Isto é precioso demais para você—"
"Exatamente por isso você deve levar," ela interrompeu firmemente. "Lindir, você vai estar sozinho lá fora. Sem família, sem lar, sem nada além de memórias que te assombram. Esta flauta... quando você estiver no ponto mais baixo, quando sentir que não há razão para continuar, toque-a. Mesmo que seja apenas uma nota. Deixe a música lembrá-lo de que você é mais que sua dor."
Ela segurou minhas mãos, forçando meus dedos a se fecharem ao redor da flauta. "Mamãe acreditava que música era ponte entre o mundo material e o divino. Que canções purificadas podiam alcançar até mesmo deuses que haviam se afastado. Continue essa tradição. Continue o trabalho dela. Não apenas com a espada, mas com a música também."
"Não sei se consigo," admiti, minha voz quebrando. "Cada vez que penso em música, vejo Alariel. Ouço a risada dela misturada às melodias. Como posso tocar quando cada nota será lâmina me cortando?"
"Porque você prometeu a ela que ensinaria seu filho as canções purificadas," Elaria disse gentilmente mas firmemente. "Esse filho nunca terá chance de aprender agora. Mas talvez... talvez algum dia você encontre outra criança que precise das canções. Outro jovem perdido como você foi. E quando esse dia chegar, você precisará saber como tocar, como ensinar, como passar adiante o que mamãe começou."
Ela tinha razão, e eu sabia disso. Ainda assim, a ideia de tocar aquela flauta - de criar música quando meu coração estava morto - parecia impossível.
Mas coloquei-a cuidadosamente na bolsa junto com o livro, enquanto prendia Silmareth em minhas costas.
Elaria me abraçou uma última vez, seu corpo tremendo com soluços que ela tentava suprimir. "Prometa que essa não será a última vez que nos vemos," ela pediu contra meu peito.
"Prometo que tentarei sobreviver," respondi, não podendo prometer mais que isso. "E se eu conseguir... se eu encontrar razão para continuar... então sim, nos veremos novamente."
"Quando voltar," ela sussurrou, "eu quero ouvir você tocar essa flauta. Quero ouvir as melodias purificadas tocadas por alguém que entende verdadeiramente o que elas significam. Promete?"
"Prometo tentar," disse, sabendo que era tudo que podia oferecer.
Ela me empurrou gentilmente em direção à saída. "Vá. Antes que seja tarde demais. E Lindir... não deixe a escuridão consumir você completamente. Mamãe não teria querido isso. Alariel não teria querido isso."
Subi através do bueiro, emergindo numa área arborizada além dos muros da propriedade. A lua estava alta, fornecendo luz suficiente para navegar. Olhei para trás uma vez, vendo os telhados da única casa que havia conhecido, agora local de pesadelo ao invés de lar.
Então virei-me e corri para a escuridão da floresta, cada passo me levando mais longe de tudo que conhecia, carregando três tesouros que eram tudo que restava de duas mulheres que eu havia amado e perdido.
Depois de tudo isso, vaguei sem rumo por semanas. Não tinha destino, não tinha plano. Apenas colocava um pé na frente do outro porque parar significava pensar, e pensar significava reviver o massacre repetidamente.
Dormi em florestas, roubei comida de fazendas isoladas quando a fome se tornava insuportável demais, evitei qualquer contato com civilização. Minha aparência se deteriorou - cabelos cresceram desgrenhados, barba começou a cobrir meu rosto, roupas cerimoniais rasgadas e manchadas tornaram-se trapos.
A cicatriz em meu rosto tornou-se permanente, puxando ligeiramente a pele ao redor do olho esquerdo, fazendo-me parecer constantemente zangado ou desdenhoso mesmo quando não sentia nada. Pessoas que ocasionalmente cruzavam meu caminho se afastavam de minha aparência.
Durante essas semanas, pensei em usar Silmareth em mim mesmo inúmeras vezes. A lâmina era afiada o suficiente. Seria rápido. Mas cada vez que segurava a espada com essa intenção, lembrava das palavras de Elaria. De Alariel me dizendo que eu era bondade genuína.
A flauta permaneceu embrulhada no fundo de minha bolsa, intocada. Não conseguia sequer olhar para ela sem sentir dor lancinante no peito.
Eu devia a elas pelo menos tentar. Tentar sobreviver, mesmo que não soubesse por quê.
Eventualmente, minha deriva sem rumo me levou ao litoral. Lá, encontrei uma cidade portuária movimentada - mistura de humanos e elfos, comerciantes e marinheiros, pessoas de todas as raças e origens misturando-se com indiferença pragmática típica de cidades comerciais.
Precisava deixar a região completamente. Ficar em territórios élficos significava risco eventual de ser reconhecido. E havia apenas uma forma para alguém sem dinheiro viajar longas distâncias - clandestinamente.
Observei o porto por dias, estudando padrões. Quais navios carregavam o quê, quais tinham segurança rigorosa, quais eram mais relaxados. Procurava oportunidade.
Encontrei numa noite quando um comerciante humano - visivelmente bêbado após celebrar venda lucrativa - cambaleou até o porto e subiu no que presumivelmente era seu navio. Ele tinha passagem em navio mercante grande que partiria ao amanhecer, rumando para regiões distantes através do mar.
Quando ele passou perto de mim em beco escuro, derrubar-lhe e roubar sua passagem foi simples. Ele estava tão embriagado que provavelmente nem lembrar-se-ia de ter tido a passagem em primeiro lugar.
Culpa mordiscou minha consciência - eu estava me tornando ladrão agora, além de tudo? - mas suprimi o sentimento. Sobrevivência primeiro. Moralidade depois, se houvesse depois.
Usando a passagem roubada e mantendo capuz puxado baixo sobre meu rosto para esconder tanto minha aparência élfica quanto minha cicatriz, embarquei no navio mercante antes do amanhecer.
O destino listado na passagem era as Ilhas Setentrionais - um arquipélago de sete ilhas ao norte, cada uma com nome em élfico antigo que descrevia sua característica principal. Eram terras que haviam sido fundadas por elfos há séculos, durante a guerra contra os demônios, como postos avançados estratégicos. Com o tempo, outras raças se estabeleceram ali, criando comunidades mistas onde perguntas sobre passado eram raramente feitas.
A viagem marítima durou semanas. Passei a maior parte do tempo no porão, evitando interação. Outros passageiros presumiam que eu era apenas mais um viajante antissocial, e me deixavam em paz.
Durante aquelas semanas no mar, tentei treinar as posturas da espada quando o navio estava quieto à noite. Mas executá-las corretamente em espaço confinado do porão era quase impossível. E tentar cantar as melodias purificadas de minha mãe apenas me fazia lembrar de Alariel, do futuro que havíamos planejado, da família que seria criada.
Então parei de treinar. Guardei Silmareth, o livro, e a flauta, e simplesmente... existia. Respirando porque meu corpo insistia em respirar, comendo porque instinto de sobrevivência forçava comida em minha boca, dormindo quando exaustão se tornava insuportável.
Não era viver. Era apenas não-morrer.
Quando o navio finalmente atracou nas Ilhas Setentrionais, desembarquei num porto onde vento cortante carregava sal e gelo. A temperatura havia caído drasticamente - estávamos em latitudes muito mais ao norte agora, onde inverno era mais que apenas estação mas força constante da natureza.
A ilha onde desembarcamos era Ringwë - "Ilha Gelada" em élfico antigo - a maior das sete ilhas e a mais populosa. Montanhas cobertas de neve eterna dominavam o horizonte, e mesmo no porto, camadas de gelo se formavam nas bordas das docas.
Olhei ao redor para a terra inóspita, pessoas vestindo peles grossas caminhando com propósito duro típico de lugares onde fraqueza era luxo ninguém podia pagar. Vi elfos, humanos, até alguns anões - todos coexistindo com a indiferença prática de quem tinha preocupações maiores que diferenças raciais.
Questionei-me se seria seguro aqui. As Ilhas tinham reputação de aceitar qualquer um disposto a trabalhar duro e sobreviver ao clima brutal. Passado não importava tanto quanto capacidade de contribuir para comunidade.
Puxei meu capuz mais apertado e comecei a caminhar para o interior da ilha, seguindo estradas rugosas que serpenteavam entre rochas e árvores retorcidas pelo vento constante.
As outras seis ilhas do arquipélago tinham seus próprios nomes élficos: Mistuilë ("Ilha Cinzenta" - coberta por névoas perpétuas), Taurëa ("Ilha Florestada" - única com florestas densas que sobreviviam ao frio), Helcassë ("Ilha Congelada" - completamente coberta de gelo durante maior parte do ano), Luinwë ("Ilha Azul" - cercada por águas profundas de tom azul impossível), Carnassë ("Ilha Vermelha" - rochas com alto teor de ferro que davam coloração avermelhada), e Mornië ("Ilha Escura" - vulcânica, com pedras negras e praias de areia preta).
Mas eu estava em Ringwë, caminhando sem direção pelas montanhas geladas, os pés entorpecendo com frio, respiração criando nuvens de vapor no ar congelante. Não tinha destino em mente. Apenas continuava andando porque parar significava congelar.
Foi durante essa caminhada sem propósito, quando o sol começava a se pôr tingindo a neve de alaranjado e rosa, que escutei gritos vindos do vale abaixo.
Parei, olhando na direção do som. Parte de mim - a parte que havia desistido de tudo - disse para ignorar e continuar andando. Não era meu problema. Eu não era herói. Não era salvador.
Mas outra parte - menor, mais fraca, mas persistente - lembrou das palavras de Elaria e Alariel. Sobre bondade que o mundo não havia conseguido destruir.
Tomei decisão antes de pensar completamente sobre ela. Corri em direção aos gritos, meus pés escorregando ocasionalmente em pedras cobertas de gelo, mas mantendo equilíbrio através de agilidade élfica.
O que encontrei foi uma vila pequena - talvez duas dúzias de casas de pedra e madeira construídas ao redor de uma praça central com poço - sendo atacada por saqueadores. Pelo menos uma dúzia de homens, vestindo armaduras irregulares e carregando armas de qualidade variável, estavam sistematicamente saqueando as casas e matando qualquer um que resistisse.
Aldeões tentavam fugir ou se defender com ferramentas agrícolas, mas eram massacrados facilmente. O cheiro de sangue e fumaça encheu o ar - várias casas já estavam queimando, chamas alaranjadas contrastando grotescamente com o branco da neve ao redor.
Por que eu me importava? Essas pessoas não eram nada para mim. Eu deveria seguir em frente.
Mas então vi uma mãe tentando proteger duas crianças pequenas enquanto um saqueador avançava com espada levantada, sorriso cruel em seu rosto. A mulher segurava um forcado com mãos tremendo, sabendo que era inútil mas recusando-se a abandonar seus filhos.
E vi Alariel. Protegendo nosso filho com as mãos até o último momento.
Antes de pensar, Silmareth estava em minhas mãos. A espada saiu de sua bainha com som musical, metal cantando contra couro.
O saqueador mais próximo - um homem grande com barba grossa e cicatrizes atravessando seu rosto - notou minha presença e virou-se para mim. Ele viu minhas orelhas pontudas expostas quando meu capuz caiu durante a corrida.
"Um elfo?" ele riu, mostrando dentes podres e faltando. "Aqui nas Ilhas? Que raridade! Sua cabeça vai valer boa quantia no mercado negro."
Ele avançou com machado levantado, confiante em seu tamanho e força bruta.
Não pensei. Apenas reagi. Meu corpo moveu-se por memória muscular desenvolvida através de anos de treinamento secreto.
"Sussurro Mortal" - a quarta postura. Velocidade absoluta focada em golpe único e letal.
Minha lâmina atravessou seu pescoço antes que ele pudesse completar seu ataque. Sua cabeça separou-se do corpo tão limpa e rapidamente que ele não fez som - apenas o ruído suave de corpo desabando na neve, tingindo-a de vermelho.
Sangue espirrou, mas eu já estava me movendo para o próximo alvo.
Os outros saqueadores notaram a morte súbita de seu companheiro. Três deles viraram-se para mim, largando aldeões que estavam aterrorizando.
"Matem o elfo!" um deles gritou, sua voz rouca e furiosa.
Eles avançaram juntos, pensando que número os tornaria vitoriosos contra um único oponente.
Estavam terrivelmente enganados.
Meu corpo se moveu através das posturas que havia praticado mil vezes na clareira secreta. "Salto da Caçadora" me levou entre eles mais rápido que podiam seguir, minha forma se tornando borrão. "Teia Cortante" girou minha lâmina em arco amplo que abriu garganta de um e peito de outro antes que pudessem reagir.
Não cantei as melodias purificadas. Não tentei alcançar a perfeição que havia buscado durante treino. Apenas matei.
E era fácil. Terrivelmente, horrivelmente fácil.
Minha técnica havia enferrujado durante semanas sem treino adequado. Minha forma não era tão perfeita quanto costumava ser. Mas contra oponentes não-treinados com equipamento inferior e disciplina zero, eu era como tempestade contra velas - imparável, inevitável, devastador.
Silmareth cortou através de carne e osso com eficiência que teria horrorizado minha mãe. Esta não era a dança elegante e quase artística que as posturas deveriam ser. Era massacre brutal executado com precisão técnica.
"Abraço da Viúva" envolveu um saqueador em sequência de cortes que o deixou tropeçando enquanto vida esvaía de múltiplas feridas. "Presa Venenosa" perfurou através da armadura improvisada de outro, alcançando órgãos vitais com precisão cirúrgica.
Cada movimento fluía para o próximo sem desperdício, sem hesitação. Anos de prática haviam programado essas sequências tão profundamente em meu corpo que ele as executava automaticamente, sem necessidade de pensamento consciente.
Em menos de dois minutos, sete saqueadores estavam mortos ou morrendo ao meu redor, seus corpos criando manchas vermelhas grotescas na neve branca. O contraste de cores era quase artístico em sua brutalidade.
Os restantes - cinco homens que subitamente perceberam que haviam atacado algo muito além de suas capacidades - quebraram e correram. Fugiram para as montanhas, abandonando armas e saques, preferindo enfrentar frio e fome que continuar enfrentando a lâmina do elfo.
Fiquei parado no meio da aldeia, respirando pesadamente, nuvens de vapor saindo de minha boca em rajadas rápidas. Coberto de sangue que não era meu, segurando Silmareth que gotejava vermelho, a lâmina prateada temporariamente manchada.
Os aldeões sobreviventes me olhavam com mistura complexa de medo e gratidão. Alguns murmuravam preces em dialeto local que mal consegui entender. Outros simplesmente choravam sobre corpos de amados que não haviam sido salvos a tempo.
A mulher que eu havia visto tentando proteger suas crianças se aproximou hesitantemente, suas duas filhas - ambas com menos de dez anos - escondidas atrás de suas saias. Seu forcado ainda estava em suas mãos, pontas tremendo.
"Você... você nos salvou," ela disse em dialeto das Ilhas que mal consegui entender - variação local de língua comum, com sotaque pesado e palavras ocasionalmente incompreensíveis. "Meus... meus bebês estariam mortos se..."
Sua voz quebrou e ela desabou de joelhos na neve, soluçando.
Não respondi. Apenas limpei minha lâmina na roupa de um saqueador morto, o tecido absorvendo sangue e deixando a prata de Silmareth brilhando novamente. Embainhei a espada e comecei a me afastar.
"Espere!" ela chamou, levantando-se rapidamente. "Pelo menos nos diga seu nome! Para que possamos agradecer adequadamente! Para que possamos honrar quem nos salvou!"
Parei, virando-me ligeiramente para olhar sobre meu ombro. Meu capuz havia caído durante a luta, revelando meu rosto cicatrizado e orelhas pontudas. Vi o momento em que ela verdadeiramente registrou minha aparência - não apenas "o guerreiro que nos salvou" mas "o elfo estranho com cicatriz horrível".
Para seu crédito, o medo em seus olhos não aumentou. Apenas gratidão.
"Não precisam agradecer," disse, minha voz rouca de desuso. "Apenas... enterrem seus mortos. Reconstruam. Vivam. Valorizem cada dia que têm."
As últimas palavras saíram mais amargas que pretendia.
Comecei a me afastar novamente, puxando meu capuz de volta sobre a cabeça, quando outra voz - voz de homem, mais velha e mais confiante que as outras - chamou do outro lado da aldeia.
"Você luta bem demais para ser simples viajante!"
Virei-me completamente desta vez para ver quem havia falado.
Um homem emergia de uma das casas menos danificadas pelo ataque. Tinha aparência que imediatamente me identificou como não sendo aldeão comum - sua postura era disciplinada, seus movimentos tinham precisão de alguém treinado em combate, e embora estivesse vestido em roupas práticas típicas das Ilhas, havia qualidade em seu equipamento que sugeria recursos acima da média.
Ele tinha talvez quarenta anos, cabelos castanhos começando a grisalhar nas têmporas, barba bem aparada, e olhos que avaliavam tudo com inteligência afiada. Uma espada longa pendia de seu cinto - não arma de fazendeiro, mas lâmina de qualidade que havia visto uso real.
Mais interessante, ele estava coberto de sangue tanto quanto eu, e três corpos de saqueadores jaziam perto da porta de onde havia emergido. Ele havia lutado também, aparentemente defendendo aquela casa específica.
"Nome é Lucius," ele disse, aproximando-se com movimentos cuidadosos - não ameaçadores, mas definitivamente não descuidados. "E você acabou de matar homens com técnicas que reconheço de descrições antigas. Posturas élficas de combate. Específicas, raras."
Não respondi, apenas o estudei igualmente, mão permanecendo próxima de Silmareth mesmo embainhada.
"Não sou inimigo," Lucius disse, levantando mãos vazias em gesto universal de paz. "Mas sou curioso. Elfo viajando sozinho pelas Ilhas Setentrionais, lutando com técnicas que a maioria pensava serem apenas lendas... há história aí."
"Toda pessoa tem história," respondi friamente. "A minha não é de seu interesse."
"Justa resposta," ele concordou com meio sorriso. "Mas deixe-me oferecer algo antes que desapareça nas montanhas para inevitavelmente morrer de frio: hospitalidade. Comida quente, lugar seco para dormir, talvez tratamento adequado para feridas que está fingindo não ter."
Franzi o cenho. "Não estou ferido."
"Seu ombro esquerdo discorda," ele apontou. "Vi você favorecer aquele lado durante luta. Ferimento antigo que nunca curou adequadamente, ou algo mais recente?"
Maldição. Ele estava certo - um dos saqueadores havia conseguido golpe rasante que eu havia ignorado na adrenalina do combate. Não era sério, mas eventualmente precisaria de atenção.
"Por que oferecer?" perguntei suspeitosamente. "Não me conhece. Não sabe nada sobre mim."
"Verdade," Lucius concordou facilmente. "Mas sei que você acabou de salvar vila inteira sem pedir nada em troca. Sei que luta como guerreiro mas não matou além de necessário - poderia ter perseguido aqueles que fugiram, mas deixou-os ir. E sei," ele adicionou mais suavemente, "que há dor em seus olhos que vai além de ferimento físico."
Sua percepção me desconfortou. Quanto ele via exatamente?
"Esta vila me deve vida," a mulher com duas crianças disse, aproximando-se novamente. "E eu, pessoalmente, devo-lhe a vida de minhas filhas. Pelo menos aceite refeição e descanso. Por favor."
Olhei entre Lucius e a mulher, então para os outros aldeões que haviam começado a se reunir - alguns ainda tratando feridos, outros começando o trabalho sombrio de reunir mortos. Todos me olhavam com mistura de gratidão e curiosidade.
Não queria companhia. Não queria conexão humana que apenas me lembraria do que havia perdido.
Mas também estava exausto, ferido, e admitir a verdade - completamente perdido.
"Uma noite," disse finalmente. "Depois sigo meu caminho."
Lucius sorriu. "Uma noite então. Venha. Minha casa foi uma das poucas que não foi queimada."
Segui Lucius através da aldeia, passando por aldeões que me observavam com olhares mistos de reverência e cautela. Algumas crianças me seguiram a distância, sussurrando entre si sobre "o elfo guerreiro", até que seus pais as chamaram de volta com repreensões suaves.
A casa de Lucius era modesta mas bem construída - pedra sólida com teto de madeira grossa, projetada para suportar o peso da neve que inevitavelmente se acumularia durante os invernos brutais de Ringwë. Fumaça saía da chaminé, promessa de calor que meu corpo entorpecido ansiava desesperadamente.
Dentro, o calor me atingiu como onda física. Uma lareira grande dominava uma parede, fogo crepitando alegremente e lançando sombras dançantes pelas paredes de pedra. A casa era espartana mas funcional - mesa e cadeiras de madeira resistente, prateleiras com suprimentos cuidadosamente organizados, algumas armas penduradas na parede em alcance fácil.
"Sente-se," Lucius indicou uma cadeira perto do fogo. "Vou buscar suprimentos médicos e comida."
Hesitei, então obedeci, o calor do fogo começando a derreter o gelo que havia se formado em minha barba e cabelo. Observei Lucius se mover pela casa com eficiência prática, reunindo bandagens, um frasco de algo que cheirava a ervas medicinais, e pão e carne curada de uma despensa.
"Tire a túnica," ele disse, voltando com os suprimentos. "Preciso ver esse ombro."
Relutantemente, removi minha túnica rasgada e manchada de sangue, expondo o ferimento. Era menos sério do que Lucius havia sugerido - um corte raso que havia parado de sangrar, mas que definitivamente precisava ser limpo para evitar infecção.
Lucius trabalhou em silêncio por alguns minutos, limpando a ferida com eficiência que falava de experiência considerável em tratar ferimentos de combate. Aplicou uma pasta de ervas que ardeu mas imediatamente começou a aliviar a dor latejante, então enfaixou cuidadosamente.
"Pronto," ele disse finalmente, recuando. "Vai curar limpo se você não fizer nada estúpido nas próximas semanas."
"Obrigado," murmurei, vestindo minha túnica novamente apesar de sua condição lastimável.
Lucius empurrou pão e carne curada em minha direção. "Coma. Parece que não faz uma refeição adequada há semanas."
Ele não estava errado. Peguei o pão e mordi, descobrindo que estava faminto de uma forma que havia estado ignorando. Comi em silêncio enquanto Lucius preparava chá de ervas que serviu em canecas de cerâmica simples.
"Então," ele disse eventualmente, sentando-se na cadeira oposta com sua própria caneca. "Você vai me dizer seu nome, ou devo continuar pensando em você como 'o elfo misterioso'?"
Considerei mentir, dar nome falso. Mas qual era o ponto? "Lindir," disse finalmente.
"Lindir," ele repetiu, testando o nome. "E de onde você vem, Lindir?"
"Lugar que não existe mais," respondi vagamente. "Para mim, pelo menos."
Lucius estudou meu rosto - especificamente a cicatriz brutal que atravessava meu olho esquerdo. "Essa marca é recente. Semanas, talvez um mês."
Não respondi, apenas tomei um gole do chá. Era forte e amargo, mas o calor era bem-vindo.
"E foi feita por alguém que queria que você se lembrasse deles toda vez que olhasse no espelho," Lucius continuou pensativamente. "Não foi ferimento de combate aleatório. Foi pessoal."
"Você observa muito," disse friamente.
"Sou pago para observar," ele respondeu sem se desculpar. "Ou era, pelo menos. Trabalhava como investigador e ocasionalmente mercenário antes de me estabelecer aqui. Aprendi a ler pessoas, ler situações."
"E o que você lê em mim?"
Lucius se inclinou para trás em sua cadeira, considerando. "Vejo alguém que fugiu de algo traumático. Vejo habilidades marciais extraordinárias que foram treinadas por anos, provavelmente desde infância. Vejo alguém que está tecnicamente vivo mas não realmente vivendo. E vejo," ele adicionou mais suavemente, "alguém que ainda não decidiu se quer continuar existindo."
Suas palavras me atingiram com mais força que qualquer golpe físico. Como esse estranho podia ver tão claramente em apenas uma hora o que eu mal admitia para mim mesmo?
"Você não tem direito—" comecei defensivamente.
"Você está certo, não tenho," Lucius interrompeu calmamente. "Mas reconheço os sinais porque já estive onde você está. Há dez anos, perdi minha esposa e filho para doença. Peste que varreu região inteira. Passei dois anos depois disso apenas... existindo. Sem propósito, sem alegria, apenas movendo-me através dos dias porque parar parecia requerer mais energia que continuar."
Olhei para ele com novo entendimento. A dor em seus olhos era antiga mas ainda visível se alguém soubesse o que procurar.
"O que mudou?" perguntei, genuinamente curioso apesar de mim mesmo.
"Conheci uma criança," ele disse simplesmente. "Órfã que estava tentando sobreviver nas ruas. Tentou roubar minha bolsa e foi tão incompetente nisso que quase ri pela primeira vez em meses. Algo naquele momento me fez perceber que... se eu não podia viver por mim mesmo, talvez pudesse viver para ajudar outros. Adotei o garoto, ensinei-lhe a sobreviver adequadamente. Ele está com vinte anos agora, trabalhando como comerciante em Luinwë."
"História inspiradora," disse, não conseguindo manter sarcasmo completamente fora de minha voz. "Mas não tenho criança órfã para me dar propósito."
"Não," Lucius concordou. "Mas tem habilidades extraordinárias. Técnicas que salvaram vila inteira hoje. E está vivo, o que significa que ainda pode escolher o que fazer com esse vida."
"Talvez eu não queira escolher," murmurei.
"Então por que salvou aquelas pessoas?" ele desafiou. "Se realmente desistiu, por que não simplesmente passou? Por que arriscou vida lutando contra dúzia de saqueadores?"
Não tinha resposta para isso. Ou tinha, mas não queria admitir - porque vi Alariel naquela mãe protegendo seus filhos. Porque não consegui deixar outra pessoa morrer quando talvez pudesse evitar.
"Vi alguém que conhecia," admiti finalmente, voz baixa. "Na mãe. Alguém que morreu porque não pude protegê-la."
Lucius assentiu lentamente. "Então está carregando culpa. Pensando que se tivesse sido mais forte, mais rápido, mais preparado, poderia ter mudado resultado."
"Eu era a isca," disse amargamente, palavras jorrando antes que pudesse pará-las. "Meu próprio pai me usou para atrair pessoas inocentes para massacre. A mulher que eu amava, nosso filho que ela carregava, centenas de outros - todos mortos porque eu fui tolo o suficiente para acreditar que poderia ter felicidade."
O silêncio que seguiu era pesado. Lucius não ofereceu platitudes vazias ou falsas garantias. Apenas sentou com a verdade do que eu havia compartilhado.
"Isso não foi sua culpa," ele disse finalmente. "Você foi vítima tanto quanto eles. Ferramenta usada por alguém monstruoso."
"Dizer isso não traz ninguém de volta."
"Não," ele concordou. "Nada trará. Mas castigar-se eternamente também não honra suas memórias. Você acha que a mulher que amava quereria que você definh asse assim? Que desperdiçasse a vida pela qual ela morreu?"
Pensei em Alariel. Em seus olhos verdes brilhando com planos para nosso futuro. Em suas mãos tocando flauta enquanto Elaria tocava harpa. Em sua risada quando ela me provocava sobre diplomacia acidental.
"Ela me faria prometer continuar," admiti relutantemente. "Fazer algo significativo com a vida que me resta."
"Então talvez devesse considerar cumprir essa promessa," Lucius sugeriu gentilmente.
Não respondi, mas algo pequeno e frágil despertou em meu peito - não esperança exatamente, mas talvez reconhecimento de que havia escolhas além de apenas desistir ou viver com culpa esmagadora.
"Você mencionou um filho," Lucius disse eventualmente. "Que ela carregava. Isso significa..."
"Ele morreu antes de nascer," disse, voz plana para evitar que quebrasse. "Nunca conheci. Nunca soube se seria menino ou menina. Nunca escolhemos nome."
Lucius ficou em silêncio por longo momento. "Tenho algo que talvez queira ver," ele disse finalmente, levantando-se e indo até um baú de madeira no canto da sala. Abriu e remexeu dentro, então voltou segurando um pequeno objeto de madeira.
Era uma flauta. Não élfica como a que Elaria havia me dado, mas humana - mais simples em design mas claramente bem feita e cuidada.
"Pertenceu ao meu filho," Lucius explicou, olhando para o instrumento com expressão distante. "Ele adorava música. Estava aprendendo a tocar quando ficou doente. Depois que morreu, guardei isso por anos sem poder olhar para ela. Cada vez que via, tudo que sentia era dor."
Ele estendeu a flauta para mim. "Mas eventualmente percebi que guardar instrumento em baú não honrava memória dele. Ele teria querido que música continuasse. Então comecei a tocar novamente, aprendi as canções que ele estava aprendendo, e quando toco, não é apenas dor. É também lembrança de alegria que ele tinha."
Não peguei a flauta dele. "Por que está me contando isso?"
"Porque vi você carregando algo quando entrou. Forma embrulhada em sua bolsa. E aposto que é instrumento que pertenceu a alguém que perdeu. E aposto que não tocou desde que ela morreu."
Ele estava certo, é claro. A flauta de Elaria - e tecnicamente de minha mãe - estava embrulhada no fundo de minha bolsa, intocada desde que parti.
"Não consigo," disse simplesmente. "Cada nota seria..."
"Dor," Lucius completou. "Sim. No início. Mas talvez eventualmente seja também celebração. Lembrança não apenas de como perdeu ela, mas de como a amou. De momentos felizes que compartilharam."
Ele guardou sua própria flauta de volta no baú. "Não precisa decidir agora. Mas pense nisso. Música, assim como vida, é escolha. Pode escolher silêncio, ou pode escolher criar algo belo da dor."
Ficamos sentados em silêncio por mais tempo, ouvindo fogo crepitar e vento uivar lá fora. Eventualmente, exaustão me alcançou - semanas de sono inadequado e stress finalmente cobrando seu preço.
"Há colchão ali," Lucius indicou canto da sala onde estava estendido perto da lareira. "Não é luxuoso, mas é quente e seco."
"Obrigado," disse, levantando-me. Então hesitei. "Lucius... por que fazer tudo isso? Por estranho que nem conhece?"
Ele sorriu levemente. "Porque há dez anos, um estranho fez o mesmo por mim quando estava no fundo do poço. Mostrou-me bondade quando não merecia, quando não havia pedido. Mudou trajetória de minha vida. Talvez seja minha vez de passar isso adiante."
"Não sei se posso mudar," admiti.
"Não precisa mudar tudo de uma vez," ele respondeu. "Apenas considere não desistir completamente. É um começo."
Deitei no colchão, corpo afundando gratamente na superfície relativamente macia. Calor do fogo próximo era hipnótico, e pela primeira vez em semanas, senti músculos começarem verdadeiramente a relaxar.
Enquanto consciência começava a escapar, pensei sobre as palavras de Lucius. Sobre escolhas. Sobre honrar memórias não através de auto-flagelação mas através de viver significativamente.
E pensei sobre a flauta embrulhada em minha bolsa, silenciosa mas esperando.
Talvez não hoje. Talvez não amanhã.
Mas algum dia, talvez, eu poderia encontrar coragem para tocar novamente.
Quando acordei na manhã seguinte, o sol já estava alto - ou tão alto quanto conseguia ficar durante os invernos de Ringwë. Lucius estava sentado à mesa, comendo mingau e lendo um livro antigo com capa de couro desgastada.
"Dormiu bem?" ele perguntou sem levantar os olhos.
"Melhor que em semanas," admiti, sentando-me lentamente. Meu corpo ainda doía de exaustão acumulada, mas era dor de recuperação ao invés de dor de colapso iminente.
Lucius empurrou uma tigela de mingau em minha direção. "Coma. Então podemos conversar sobre seus planos."
"Meus planos são partir," disse automaticamente.
"Para onde?" ele perguntou, finalmente olhando para mim. "Mais deriva sem rumo pelas montanhas até congelar? Mais cidades aleatórias onde talvez salve algumas pessoas antes de seguir adiante com culpa?"
Não tinha resposta para isso porque ele estava certo.
"Tenho proposta," Lucius disse, fechando seu livro. "Fique aqui. Por enquanto, pelo menos. Esta aldeia precisa de alguém capaz de defendê-la - aqueles saqueadores vão contar histórias, e outros predadores vão pensar duas vezes antes de atacar se souberem que há guerreiro élfico protegendo o lugar."
"Não sou protetor," argumentei. "Não sou herói."
"Não pedi que fosse herói," Lucius respondeu calmamente. "Pedi que ficasse vivo e fosse útil. Há teto sobre sua cabeça, comida na mesa, e propósito se quiser. Não precisa ser para sempre. Apenas... até descobrir o que quer fazer."
Olhei para a tigela de mingau, para o fogo crepitante, para as paredes sólidas que me protegiam do frio mortal lá fora. Olhei para Lucius, que me oferecia algo que eu não havia tido em meses - estabilidade.
"Um mês," disse finalmente. "Posso ficar um mês."
Lucius sorriu levemente. "Vamos começar com isso então."
Um mês se tornou dois. Dois se tornaram quatro. Antes que percebesse, um ano inteiro havia passado.
Durante esse tempo, estabeleci rotina que me manteve ancorado quando pensamentos sombrios ameaçavam me consumir. Acordava ao amanhecer, treinava as posturas da espada na clareira fora da aldeia - ainda sem cantar as melodias purificadas, mas pelo menos mantendo meu corpo afiado. Patrulhava perímetro da aldeia, verificava trilhas nas montanhas por sinais de ameaça, ajudava ocasionalmente com trabalho pesado que minha força élfica tornava mais fácil.
Lucius tornou-se algo próximo de amigo - o mais próximo que eu havia tido desde Elaria. Ele não pressionava sobre meu passado, não oferecia platitudes sobre "seguir em frente". Apenas existia ao meu lado, oferecendo companhia quando eu queria e silêncio quando precisava.
Os aldeões gradualmente se acostumaram com minha presença. No início, me tratavam com reverência nervosa - "o elfo guerreiro que nos salvou". Mas com tempo, isso se desgastou em aceitação casual. Crianças pararam de correr quando me aproximava. Mulheres me cumprimentavam normalmente quando passava. Homens ocasionalmente me convidavam para beber - convites que geralmente recusava, mas o gesto era apreciado.
A mãe cujas filhas eu havia salvado - seu nome era Hilda - insistia em trazer comida extra para a casa de Lucius semanalmente. "Para garantir que está comendo adequadamente," ela dizia, embora suspeitasse que era mais sua forma de expressar gratidão contínua.
Durante aquele ano, a flauta permaneceu embrulhada em minha bolsa. Várias vezes peguei-a, senti o peso familiar da madeira, mas nunca consegui levar aos lábios. A dor ainda era muito aguda, muito fresca.
Mas comecei a ler o livro novamente. "A Dança da Espada de Seda", com todas as anotações meticulosas de minha mãe. Estudei as melodias purificadas que ela havia passado décadas desenvolvendo, memorizei as correções que ela havia feito nota por nota.
"Algum dia," Lucius disse uma noite, observando-me estudar o livro, "você vai precisar decidir se continua sendo apenas sobrevivente ou se torna algo mais."
"E o que seria esse 'algo mais'?" perguntei.
"Isso é algo que apenas você pode responder," ele disse.
O inverno em Ringwë foi brutal. Neve acumulou-se até a altura dos telhados. Ventos uivavam através das montanhas com força que parecia querer arrancar a própria pele dos ossos. Mas a aldeia sobreviveu, e nenhum saqueador foi tolo o suficiente para atacar durante condições tão severas.
Quando a primavera finalmente chegou - ou o que passava por primavera nas Ilhas Setentrionais, que significava apenas menos neve ao invés de nenhuma - mensageiro chegou à aldeia.
Ele procurava Lucius especificamente, carregando carta selada com cera vermelha estampada com brasão que não reconheci.
Lucius leu a carta em silêncio, sua expressão ficando progressivamente mais pensativa.
"Oferta de trabalho," ele disse finalmente. "De um barão em Taurëa. Procura guardas pessoais - especificamente guerreiros experientes e discretos."
"Taurëa?" repeti. "A Ilha Florestada?"
"Sim. Única das sete ilhas com florestas densas que sobrevivem ao clima. Mais temperada, mais verde. E aparentemente lar de algum barão com dinheiro suficiente para contratar proteção particular."
"Você vai aceitar?" perguntei.
Lucius me olhou significativamente. "Carta solicita dois guardas. Pagamento é generoso - suficiente para sustentar alguém confortavelmente por anos. E..." ele hesitou, "pensei que talvez você estivesse pronto para mudança de cenário. Tem estado aqui um ano. Cumpriu sua promessa de ficar útil e vivo. Mas vejo em seus olhos que ainda está preso."
"Preso em quê?"
"Em limbo," ele disse gentilmente. "Não morto, mas não verdadeiramente vivo. Talvez novo lugar, novo propósito, possa ajudar."
Considerei. Parte de mim queria recusar, permanecer na rotina segura que havia estabelecido. Mas Lucius tinha razão - eu estava preso. Um ano havia passado e ainda acordava todas as manhãs vendo o rosto de Alariel. Ainda sentia peso de culpa esmagadora.
"Quanto tempo seria o contrato?" perguntei.
"Carta não especifica. Diz apenas 'até que serviços não sejam mais necessários'. Tipicamente esse tipo de arranjo dura meses, talvez um ano."
"E se recusarmos?"
"Então continuamos aqui. Não há vergonha nisso. Esta aldeia te vê como protetor agora. Poderia construir vida aqui, se quisesse."
Olhei ao redor da casa simples que havia sido meu lar por um ano. Olhei para Lucius, que havia se tornado a coisa mais próxima de família que eu tinha.
"Vamos aceitar," disse finalmente. "Juntos."
Lucius sorriu. "Juntos então."
Capítulo XI: O Barão de Taurëa
A viagem para Taurëa levou três dias por barco, navegando entre as ilhas do arquipélago. Foi minha primeira vez realmente vendo as outras ilhas - passamos perto de Helcassë, completamente coberta de gelo que brilhava azul-branco sob o sol; vislumbramos Carnassë ao longe, suas falésias vermelhas dramáticas contra o céu cinzento; e finalmente atracamos em Taurëa.
A diferença era imediata e chocante. Onde Ringwë era terra de pedra e gelo, Taurëa era verde. Florestas densas cobriam a maior parte da ilha, árvores altas - pinheiros principalmente, mas também carvalhos e bordos - criando dossel que bloqueava grande parte do céu. O ar era mais quente, mais úmido, cheio de cheiro de terra e vegetação.
"Como é possível?" perguntei enquanto desembarcávamos. "Estamos apenas alguns dias de navegação de Ringwë, mas o clima é completamente diferente."
"Correntes oceânicas," Lucius explicou. "E algo sobre a geografia da ilha - as montanhas bloqueiam ventos piores. Elfos que fundaram as ilhas escolheram cada local estrategicamente durante a guerra. Taurëa era destinada a ser ponto de recursos - madeira, caça, agricultura possível."
Seguimos instruções na carta, que nos levaram por estrada de terra bem mantida através da floresta. Viajamos por meio dia até chegarmos a uma propriedade impressionante.
A mansão era construída em estilo que mesclava arquitetura élfica com influências humanas - madeira escura e pedra, três andares de altura, com torres em cada canto. Estava situada numa clareira grande, cercada por muros de pedra que eram claramente defensivos mas também esteticamente projetados com vinhas trepadeiras e jardins bem cuidados.
Guardas nos pararam no portão - homens bem equipados e profissionais em aparência.
"Lucius e Lindir," Lucius anunciou. "Esperados pelo Barão."
Os guardas verificaram alguma lista, então acenaram para passarmos. "Ele está esperando no escritório principal. Servo os levará."
Um elfo jovem - não podia ter mais de cinquenta anos, praticamente adolescente para nossa raça - nos guiou através da mansão. O interior era opulento mas não excessivamente ostentador - mobília de qualidade, tapeçarias nas paredes, candelabros de cristal, mas tudo tinha funcionalidade além de beleza.
Chegamos a uma porta de carvalho pesada que o servo bateu educadamente.
"Entre," uma voz chamou de dentro.
O servo abriu a porta e nos indicou para entrar.
O escritório era espaçoso, com estantes cobrindo duas paredes, mesa grande de madeira polida dominando o centro, e janelas largas oferecendo vista da floresta. Mas não foi a decoração que capturou minha atenção.
Foi o homem - ou o que parecia ser homem - sentado atrás da mesa.
Ele tinha talvez aparência de quarenta anos humanos, cabelos negros penteados para trás, olhos que eram cinza escuro - quase preto. Usava roupas finas mas práticas - túnica de seda escura, colete de couro trabalhado. Tinha presença que imediatamente me colocou em alerta, embora não pudesse identificar exatamente por quê.
Algo nele estava... errado. Não obviamente, não de forma que pudesse apontar. Mas meus instintos - afiados por anos de treinamento e sobrevivência - gritavam que essa pessoa era perigosa de formas que eu não compreendia completamente.
"Lucius e Lindir," ele disse, levantando-se e sorrindo calorosamente. "Obrigado por virem. Meu nome é Valdris. Bem-vindos à minha propriedade."
"Senhor Valdris," Lucius cumprimentou formalmente. "Sua carta mencionou necessidade de guardas pessoais."
"Sim," Valdris concordou, indicando cadeiras diante de sua mesa. "Por favor, sentem-se. Posso oferecer vinho? Chá?"
"Estamos bem," Lucius disse, e eu assenti concordando.
Valdris sentou-se novamente, entrelaçando dedos sobre a mesa. "Vou ser direto. Minha esposa está grávida - dará à luz em aproximadamente três meses. Durante a guerra ancestral, esta propriedade serviu como fortaleza estratégica. Como resultado, há... elementos que ocasionalmente tentam reivindicar o que acreditam serem artefatos escondidos aqui."
"Que tipo de elementos?" perguntei, falando pela primeira vez.
Valdris me estudou, e por breve momento, seus olhos pareceram brilhar com luz que não vinha de fonte externa. "Perigosos. Deixemos assim. Preciso de guerreiros capazes que possam proteger minha família durante este período vulnerável."
"Por que nós especificamente?" Lucius perguntou. "Carta foi endereçada especificamente. Como sabia de nós?"
"Tenho... fontes," Valdris disse vagamente. "Que mencionaram guerreiro élfico em Ringwë com habilidades extraordinárias, e humano experiente que luta ao seu lado. Pesquisei, gostei do que ouvi, fiz oferta."
Não gostei de quão vago ele estava sendo, mas o pagamento oferecido era generoso o suficiente para valer investigação.
"Quais seriam nossas responsabilidades exatas?" Lucius perguntou.
"Patrulhar a propriedade, verificar perímetro por ameaças, estar presente durante momentos vulneráveis - principalmente à noite. Responder a qualquer ataque com força necessária. E..." ele hesitou, "manter discrição absoluta sobre qualquer coisa... incomum que possam observar."
"Incomum como?" insisti.
Valdris sorriu, mas não alcançou seus olhos. "Digamos apenas que minha família tem certas peculiaridades que preferimos manter privadas. Nada que os afetará negativamente, mas que pode surpreendê-los."
Olhei para Lucius, que parecia estar fazendo cálculos similares. O trabalho parecia direto o suficiente - proteger propriedade e família durante gravidez. Pagamento era excelente. As "peculiaridades" mencionadas eram preocupantes, mas sem informação específica, difícil avaliar quão problemáticas seriam.
"Aceitamos," Lucius disse finalmente. "Com entendimento que se situação se tornar insustentável por qualquer razão, podemos terminar contrato."
"Justo," Valdris concordou, estendendo a mão. "Terão quartos na ala leste. Servo os mostrará. Começam amanhã ao amanhecer."
Apertamos mãos - e quando toquei Valdris, senti algo que fez cada instinto em meu corpo gritar alerta.
Sua pele estava quente. Não normalmente quente, mas quente como metal deixado ao sol. E por breve momento, tão rápido que quase pensei ter imaginado, senti pulso de energia que era definitivamente não-humana e não-élfica.
Valdris notou minha reação - vi em seus olhos - mas apenas sorriu educadamente e soltou minha mão.
"Descansem hoje," ele disse. "Amanhã conhecerão minha esposa e terão tour completo da propriedade."
Fomos dispensados, e servo nos levou para quartos na ala leste - aposentos espaçosos e confortáveis com camas reais, lareiras, e vistas da floresta.
Assim que estávamos sozinhos, Lucius se virou para mim. "Você sentiu?"
"Sim," confirmei. "Ele não é humano. E não é elfo, anão, ou qualquer raça que conheço."
"Pensamentos?"
"Nenhum bom," admiti. "Mas também nenhum concreto. Ele é... algo. Algo poderoso e antigo, escondido em forma humana."
"Deveríamos partir?" Lucius perguntou.
Considerei. "Não ainda. Não fez nada hostil. E se há mesmo ameaças vindo atrás dele, sua esposa - que presumivelmente é inocente nisso - precisa de proteção."
"Sempre o herói," Lucius murmurou com meio sorriso.
"Não herói," corrigi. "Apenas... não quero deixar outra mulher grávida morrer se posso evitar."
Lucius assentiu, entendendo sem que precisasse elaborar.
"Então ficamos vigilantes," ele disse. "E se situação se tornar perigosa demais, saímos imediatamente."
"Acordado."
Mas enquanto deitava na cama naquela noite, olhando para teto desconhecido, não conseguia evitar sensação de que havia acabado de entrar em algo muito maior e mais perigoso do que simples trabalho de guarda.
E não estava completamente certo se isso era coisa boa ou ruim.
Na manhã seguinte, Valdris nos deu tour completo da propriedade. A luz do dia revelou ainda mais detalhes que a chegada ao entardecer havia escondido - a mansão era maior do que havia parecido inicialmente, com jardins extensos, estábulos, armazéns, e até uma pequena forja nos fundos.
"A propriedade é praticamente autossuficiente," Valdris explicou enquanto caminhávamos. "Durante a guerra ancestral, era necessário. Essas práticas continuaram."
Ele nos mostrou os pontos de entrada e saída, os lugares onde o muro era mais vulnerável, os caminhos que atravessavam a floresta circundante. Era claro que conhecia bem sua própria segurança - ou falta dela em certos pontos.
"Tiveram problemas antes?" Lucius perguntou, examinando uma seção do muro que mostrava reparos recentes.
"Ocasionalmente," Valdris admitiu. "Nada sério até agora, mas com minha esposa grávida... prefiro não arriscar."
Foi então que a conhecemos.
Ela estava nos jardins, ajoelhada entre canteiros de flores, mãos na terra. Quando nos aproximamos, levantou-se graciosamente apesar da barriga proeminente - ela estava claramente nos últimos meses de gravidez.
"Meu amor," Valdris chamou suavemente, "estes são os guardas que mencionei. Lucius e Lindir."
Ela se virou para nós, e meu coração apertou dolorosamente.
Não porque ela se parecesse com Alariel - não se parecia. Ela tinha cabelos loiros quase brancos, olhos azuis claros, pele pálida típica de humanos do norte. Mas havia algo na forma como segurava a barriga protetoramente, na forma como sorriu com genuína bondade, que me lembrou intensamente da mulher que havia perdido.
"É um prazer conhecê-los," ela disse com voz suave e melodiosa. "Meu nome é Elenna. Valdris me contou muito sobre vocês."
"Senhora," Lucius cumprimentou respeitosamente.
Ela riu gentilmente. "Por favor, apenas Elenna. Formalidades me fazem sentir velha."
"Quando está esperando?" perguntei, as palavras saindo antes que pudesse pará-las.
"O curandeiro diz que em dois a três meses," ela respondeu, acariciando a barriga com ternura óbvia. "Primeira vez. Estou... nervosa, para ser honesta."
"Estará em boas mãos," Valdris disse, colocando mão protetora em seu ombro. "Temos melhor curandeiro da ilha, e agora os melhores guardas."
A forma como ele olhava para ela era inegavelmente amorosa. Fosse o que fosse Valdris - e eu tinha certeza agora que ele definitivamente não era humano - seu amor por sua esposa parecia genuíno.
"Vocês têm filhos?" Elenna perguntou inocentemente.
A pergunta me atingiu como golpe físico. "Não," consegui dizer, minha voz mais rouca que pretendia.
Elenna deve ter percebido algo em minha expressão porque seu rosto se encheu de algo parecido com compreensão triste. "Perdão," disse suavemente. "Não quis trazer memórias dolorosas."
"Está tudo bem," menti.
Lucius, percebendo meu desconforto, suavemente direcionou conversa para logística - horários de patrulha, procedimentos de emergência, sinais de alarme. Elenna eventualmente voltou para seus jardins, e continuamos o tour.
As primeiras semanas foram relativamente tranquilas. Estabelecemos rotina de patrulhas, Lucius tomando turnos noturnos enquanto eu cobria o dia, depois alternando. A propriedade era pacífica, os servos eram eficientes e discretos, e Valdris e Elenna eram empregadores respeitosos que nos davam espaço para fazer nosso trabalho.
Mas eu observava. Sempre observava.
E comecei a notar coisas.
Valdris nunca comia na frente de outras pessoas. Durante jantares formais onde Elenna insistia que nos juntássemos a eles, ele empurrava comida pelo prato mas raramente levava qualquer coisa à boca.
Sua sombra às vezes se movia incorretamente - frações de segundo fora de sincronia com seus movimentos reais.
Em noites de lua nova, ele desaparecia por horas, voltando antes do amanhecer com cheiro de enxofre fraco mas inconfundível.
E seus olhos - quando pensava que ninguém estava olhando - brilhavam com luz vermelha fraca.
"Ele é demônio," disse a Lucius uma noite, depois de particularmente óbvia demonstração quando sombra de Valdris havia se movido completamente independente por quase cinco segundos.
"Eu sei," Lucius respondeu calmamente. "Percebi há duas semanas."
"E não mencionou?"
"O que teria adiantado?" Lucius perguntou razoavelmente. "Ele não nos atacou. Não fez nada hostil. E Elenna..."
"Elenna não sabe," completei. "Ou sabe e não se importa."
"Provável que não saiba," Lucius disse. "A forma como ela olha para ele - é amor puro. Sem medo, sem suspeita. Ela vê homem que a ama, não demônio."
"Deveríamos contar a ela?"
"E destruir seu mundo?" Lucius contra-argumentou. "Ela está grávida, vulnerável. Que bem faria?"
Ele tinha ponto. Mas ainda me incomodava.
Foi na terceira semana que Valdris nos convocou para reunião privada em seu escritório. Desta vez, havia tensão em sua postura que não havia estado lá antes.
"Preciso ser honesto com vocês," ele disse sem preâmbulo. "Completamente honesto, porque vocês já suspeitam e merecem saber verdade completa."
"Você é demônio," disse diretamente.
Para minha surpresa, ele pareceu aliviado que havia falado primeiro. "Sim. Sou."
"Por que estar aqui?" Lucius perguntou. "Demônios foram selados. Como você está livre?"
"Porque fui exilado," Valdris disse, e pela primeira vez, vi emoção genuína - dor - cruzar seu rosto. "Antes mesmo do selamento final. Há mais de seis séculos, fui expulso do plano demoníaco e banido aqui."
"Por quê?" perguntei.
"Isso..." ele hesitou, "não posso dizer. Não porque não confio em vocês, mas porque o conhecimento em si é perigoso. Apenas saibam que discordei fundamentalmente com outros demônios sobre direção da guerra. Fui punido por essa discordância."
"E Elenna?" Lucius pressionou. "Ela sabe?"
"Não," Valdris admitiu, e havia culpa genuína em sua voz. "E me odeio por mentir para ela todos os dias. Mas como explicar? 'Querida, sou criatura do plano demoníaco'? Ela me amaria ainda? Poderia olhar para mim sem horror?"
"Ela merece a verdade," disse.
"Eu sei," Valdris concordou miseravelmente. "E pretendia contar. Mas então ela engravidou, e... não consegui arriscar perdê-la. Perdê-los."
Houve silêncio pesado.
"Por que nos contar agora?" Lucius perguntou.
"Porque," Valdris disse, e sua voz ficou séria, "outros demônios descobriram onde estou. Aqueles que permaneceram leais à causa original da guerra. Eles querem algo que possuo - artefato que roubei quando fui exilado."
"Que artefato?" perguntei.
Valdris caminhou até estante, moveu alguns livros, e pressionou painel escondido. Parte da parede deslizou, revelando cofre pequeno. De dentro, ele retirou objeto envolto em pano negro.
Quando desembrulhou, revelou fragmento de cristal negro do tamanho de punho. Brilhava com luz interior vermelha pulsante, e apenas olhar para ele me fez sentir enjoado.
"Isto é fragmento da Pedra Rúnica," Valdris disse suavemente. "A mesma pedra que sela a fenda entre planos. Com isto, combinado com rituais corretos e posicionamento preciso, alguém poderia começar a enfraquecer o selo."
"Você roubou pedaço da pedra que mantém demônios selados?" Lucius disse, voz carregada de descrença.
"Para prevenir exatamente isto," Valdris defendeu. "Se todos os fragmentos estão juntos na pedra principal, ela é vulnerável. Separados, espalhados, o selo é mais forte. Há outros fragmentos escondidos pelo mundo - elfos que lutaram na guerra os espalharam como seguro."
"Quantos demônios estão vindo?" perguntei.
"Não sei ao certo. Mas senti presença deles se aproximando nas últimas semanas. Muitos. Isto não é apenas sobre recuperar o fragmento - é punição por minha traição."
"Quando atacarão?"
"Logo," Valdris disse. "Muito logo."
Duas semanas se passaram em tensão crescente. Intensificamos patrulhas, fortificamos pontos fracos no perímetro, preparamos planos de evacuação de emergência. Elenna notou mudança na atmosfera mas Valdris a tranquilizou, dizendo apenas que havia rumores de bandidos na região.
Ela estava agora semanas de dar à luz, barriga enorme, movimentos lentos e cuidadosos. Passava a maior parte do tempo em seus aposentos, descansando conforme curandeiro ordenara.
O ataque veio numa noite sem lua.
Acordei com som de explosão distante. Corri para janela e vi que o portão principal estava em chamas, figuras escuras derramando-se através da abertura.
Demônios. Dezenas deles.
"LUCIUS!" gritei, já pegando Silmareth.
Corremos para o salão principal onde Valdris já estava, sua forma começando a mudar enquanto se preparava para lutar. Três demônios haviam chegado até ele - os primeiros da horda.
Um deles segurava o fragmento de cristal negro - aparentemente já haviam invadido o escritório e roubado do cofre.
"Traidor!" o demônio sibilou para Valdris. "Pensou que poderia esconder de nós? Pensou que poderia brincar de humano e esquecer o que é?"
Valdris, já permitindo sua forma verdadeira emergir, rugiu em desafio. Sua pele escureceu para tom carmesim, olhos acendendo completamente vermelho, corpo crescendo em tamanho até atingir quase três metros de altura. Chifres curvos emergiram de sua testa.
"Protejam Elenna!" ele gritou para nós. "Não importa o que aconteça, protejam minha esposa!"
Lucius e eu corremos para as escadas, mas mais demônios bloquearam nosso caminho. A mansão estava sendo invadida de todos os lados.
"Quantos são?!" Lucius gritou enquanto cortava através do primeiro demônio que o atacou.
"Muitos demais!" respondi, Silmareth dançando em minha mão.
Lutamos desesperadamente através de corredores, matando demônios que tentavam nos parar. Atrás de nós, ouvi rugidos e explosões enquanto Valdris lutava contra números esmagadores.
Finalmente chegamos aos aposentos de Elenna. A porta estava trancada por dentro.
"ELENNA!" gritei, batendo. "Abra! Precisamos te tirar daqui!"
A porta se abriu. Elenna estava pálida de terror, vestido de noite manchado de sangue - ela havia entrado em trabalho de parto.
"O bebê," ela ofegou. "Está vindo. Agora."
"Não temos tempo—" comecei.
"NÃO TENHO ESCOLHA!" ela gritou, dobrando com contração.
Maldição. Lutamos para mantê-la de pé enquanto tentávamos movê-la, mas ela não conseguia andar. O bebê estava vindo quer quiséssemos ou não.
Explosão sacudiu o andar de baixo. Gritos. O cheiro de enxofre e sangue.
"Lucius, proteja a porta," ordenei. "Eu ajudo com o parto."
"Você sabe o que fazer?!"
"Não, mas vamos descobrir!"
Os minutos seguintes foram caos absoluto. Elenna sofreu através de contrações enquanto sons de batalha ecoavam pela mansão. Lucius lutou contra demônios que tentavam forçar entrada no quarto. E eu, sem qualquer treinamento, tentei ajudar trazer criança ao mundo.
"Empurre!" eu disse quando sentia contração vir. "Você consegue!"
"Valdris!" Elenna chorou. "Onde está Valdris?!"
Como se em resposta, rugido massivo sacudiu a mansão inteira. Então, silêncio súbito e terrível.
A porta explodiu aberta. Lucius foi jogado para trás, batendo contra parede.
Cinco demônios entraram, liderados por criatura massiva com chifres retorcidos e olhos que queimavam como fornalhas.
"A esposa do traidor," o líder disse com voz que gotejava ódio. "E seu filho impuro, metade demônio, metade humano. Abominação que nunca deveria existir."
Coloquei-me entre Elenna e os demônios, Silmareth erguida. "Terão que me matar primeiro."
O líder riu. "Isso pode ser arranjado."
Foi então que escutei - fraco mas crescente - choro de bebê.
Olhei para trás. Elenna segurava criança minúscula contra peito, bebê coberta de sangue e fluido mas viva. Uma menina.
"Minha filha," Elenna sussurrou, lágrimas escorrendo. "Minha pequena..."
"Matem-nos," o líder ordenou. "Todos."
Comecei a cantar.
As melodias purificadas de minha mãe jorraram de meus lábios, e fios prateados explodiram ao redor de Silmareth. Os demônios recuaram, gritando como se queimados.
Ataquei com fúria que não sabia possuir. "Abraço da Viúva" cortou através de dois demônios. "Sussurro Mortal" decapitou terceiro.
Mas eram muitos. E eu estava cansado.
Um deles passou por minha defesa e agarrou Elenna.
"NÃO!" gritei.
O demônio rasgou garganta de Elenna com garras. Sangue jorrou. Ela teve tempo apenas para olhar para bebê em seus braços, sussurrar "te amo" antes de vida escapar de seus olhos.
Algo dentro de mim quebrou completamente.
Rugido escapou de minha garganta - som que não era élfico, não era humano, era pura raiva primordial. Fios prateados explodiram ao meu redor em quantidade que nunca havia manifestado, envolvendo todo meu corpo como armadura brilhante.
Massacrei os demônios restantes no quarto. Não foi combate - foi execução. Cada golpe atravessava múltiplos inimigos. Cada movimento deixava rastro de cinzas.
Quando terminei, apenas Lucius, eu, e bebê ainda viva permanecíamos.
Peguei criança cuidadosamente dos braços mortos de Elenna. Ela chorava, assustada e coberta de sangue de sua mãe.
"Precisamos ir," Lucius disse urgentemente. "Mansão inteira está queimando. E há mais deles lá fora."
Descemos escadas, pisando sobre corpos de demônios e servos mortos. No salão principal, encontramos Valdris.
Ele estava caído, forma demoníaca quebrada e sangrando de dezenas de ferimentos. Ao redor dele, pilhas de cinzas - ele havia lutado até o fim, matado dezenas antes de finalmente cair.
Seus olhos, ainda brilhando fracamente vermelho, focaram em nós quando nos aproximamos.
"E-Elenna?" ele ofegou.
Não precisei responder. Ele viu verdade em meu rosto.
"Não..." lágrimas - reais, genuínas lágrimas - escorreram de seus olhos demoníacos. "Não, não, não..."
"Ela deu à luz," disse suavemente. "Uma filha. Ela vive."
Valdris olhou para bebê em meus braços. "Minha... minha filha..."
"Pegue-a," ofereci, ajoelhando ao lado dele.
Com mãos tremendo, Valdris segurou bebê contra peito. Ela havia parado de chorar, olhando para ele com olhos curiosos.
"Tão pequena," ele sussurrou. "Tão perfeita..." Sua voz quebrou. "Perdoe-me. Perdoe seu pai inútil que não pôde proteger sua mãe."
"Valdris," Lucius disse urgentemente. "Mais demônios estão vindo. Temos que sair."
"Vão," Valdris disse, devolvendo bebê para mim com ternura infinita. "Levem minha filha. Protejam-na."
"Você vem conosco—"
"Não posso," ele interrompeu. "Estou morrendo. E alguém precisa destruir o fragmento. Não pode cair em mãos deles."
Do bolso de sua túnica rasgada, ele retirou fragmento de cristal negro. "Peguei de volta antes de cair. Vou destruí-lo com minhas últimas forças."
"Valdris—"
"Cuidem dela," ele disse firmemente. "Dêem-lhe nome bonito. Contem-lhe sobre mãe que a amava. E se algum dia ela perguntar sobre pai... digam que ele a amava mais que tudo também."
Explosão sacudiu a mansão novamente. Teto começou a desmoronar.
"VÃO!" Valdris rugiu, reunindo forças finais.
Corremos.
Atrás de nós, ouvi rugido final de Valdris, então explosão massiva que iluminou céu noturno. Ele havia destruído fragmento - e a si mesmo no processo.
Chegamos ao porto privado. Pequeno barco ainda estava lá, intocado.
Lucius o preparou rapidamente enquanto eu segurava bebê contra meu peito, protegendo-a de ventos frios.
"Onde vamos?" perguntei enquanto navegávamos para longe de Taurëa em chamas.
"Longe," Lucius disse. "O mais longe possível."
Olhei para baixo, para bebê em meus braços. Ela havia parado de chorar, olhando para mim com confiança impossível para algo tão pequeno.
"Você precisa de nome," disse suavemente.
Pensei em minha mãe, Meliam. Pensei em meu filho que nunca nasceu. Pensei em todas as crianças perdidas e mortas por causa de guerras que não eram suas.
"Melian," disse. "Seu nome é Melian."
"Bom nome," Lucius disse suavemente. "Nome de recomeço."
Navegamos para o desconhecido, carregando criança que era tudo que restava de amor verdadeiro entre demônio exilado e mulher humana que o amara sem saber verdade.
Navegamos por três dias através de águas cada vez mais turbulentas. Melian chorava frequentemente - com fome, com frio, com desconforto - e fazíamos o melhor que podíamos com os suprimentos limitados que tínhamos conseguido pegar antes de fugir. Lucius rasgou pedaços de sua própria camisa para fazer fraldas improvisadas. Eu segurava a bebê contra meu peito para mantê-la aquecida, cantarolando melodias que não sabia de onde vinham - talvez instinto, talvez memória de canções de ninar que minha própria mãe teria cantado.
Não tínhamos destino específico. Apenas seguíamos rumores vagos que Lucius havia ouvido anos atrás sobre lugares tão devastados pela guerra ancestral que até demônios os evitavam - terras contaminadas por magia tão profundamente que realidade em si havia se deformado.
"Se encontrarmos tal lugar," Lucius disse enquanto ajustava as velas, "talvez possamos escondê-la lá. Pelo menos temporariamente."
"E depois?" perguntei, embalando Melian que finalmente havia adormecido.
"Não sei," ele admitiu. "Um passo de cada vez."
Na manhã do quarto dia, avistamos terra.
O que vimos me fez parar completamente, respiração presa.
A costa não era como qualquer coisa que eu já havia visto ou lido em qualquer texto. Campos de trigo dourado se estendiam até o horizonte, ondulando gentilmente com brisas suaves. Mas entre o trigo, emergindo como ilhas em mar dourado, havia objetos que não pertenciam.
Espadas. Enormes, impossíveis espadas cravadas no chão, suas lâminas alcançando dezenas de metros no ar. Algumas eram maiores que torres, oxidadas mas ainda intactas após séculos. Escudos do tamanho de casas jaziam parcialmente enterrados, seus brasões ainda vagamente visíveis. Armaduras gigantescas estavam espalhadas, vazias agora mas sugerindo guerreiros que devem ter medido vinte, talvez trinta metros de altura.
E ossos. Ossadas colossais emergindo da terra como cordilheiras brancas - costelas grandes como arcos de ponte, crânios do tamanho de edifícios pequenos, fêmures que poderiam servir como pilares de templos.
"Gigantes," Lucius sussurrou com reverência e horror. "A última criação dos deuses durante a guerra ancestral."
"Última?" repeti, olhando para devastação antiga.
"Sim," Lucius confirmou, sua voz carregada com peso de conhecimento histórico. "Primeiro, os deuses criaram os elfos para combater a invasão demoníaca - seres ligados à essência da Terra, dotados de magia natural e longevidade. Mas quando metade dos elfos foi corrompida pelos sussurros demoníacos, quando aqueles que deveriam proteger o mundo se voltaram contra seus próprios irmãos, os deuses perceberam que precisavam de algo diferente."
Ele apontou para as ossadas massivas ao nosso redor. "Então criaram os gigantes como último recurso. Seres de pura força, imbuídos com poder divino concentrado, grandes demais para serem facilmente corrompidos, poderosos demais para serem facilmente derrubados. Cada gigante era como fortaleza viva, capaz de enfrentar centenas de demônios."
"Mas todos morreram aqui," completei, olhando para devastação.
"Sim. Criar os gigantes exigiu tanto poder divino que enfraqueceu os próprios deuses dramaticamente. E quando os gigantes caíram nesta batalha final..." ele fez gesto abrangente, "os deuses não tinham mais força para criar nada novo. A guerra foi vencida não através de novas criações, mas através do selamento - aprisionando os demônios restantes usando as últimas reservas de poder divino."
Olhei ao redor com novo entendimento. Este não era apenas campo de batalha - era túmulo da última esperança dos deuses, o local onde sua criação final havia feito posição final e caído.
"Eles morreram protegendo algo," disse suavemente. "Os gigantes. Morreram para que o selamento pudesse ser completado."
"Exatamente," Lucius concordou. "Enquanto eles mantinham demônios ocupados aqui, elfos leais trabalhavam para forjar a Pedra Rúnica e selar a fenda. Cada gigante que caiu comprou tempo precioso. E quando o último deles finalmente caiu..." ele apontou para capela distante, "aquilo foi construído para honrar seu sacrifício."
Atracamos o barco numa praia rochosa. Não havia porto, não havia estruturas - apenas a costa selvagem e o campo de trigo infinito além.
Carregando Melian contra meu peito, começamos a caminhar em direção à capela distante.
O campo era estranho de formas que transcendiam o visual. Conforme caminhávamos, senti algo mudando - como se ar em si fosse diferente aqui. Mais limpo. Mais leve. E havia sensação persistente de... paz. Genuína, profunda, impossível paz.
"Você sente?" perguntei a Lucius.
"Sim," ele confirmou. "É como se... como se raiva não pudesse existir aqui. Como se más intenções simplesmente se dissolvessem."
Passamos entre ossadas gigantes. De perto, eram ainda mais impressionantes - podíamos caminhar através da caixa torácica de um como através de caverna de osso. Inscrições estavam gravadas em alguns dos ossos, em línguas que não reconheci - talvez os nomes dos gigantes, ou orações de seus criadores.
As armas gigantescas eram obras de arte mesmo em seu estado deteriorado. Podíamos ver detalhes intrincados nas empunhaduras, runas gravadas nas lâminas que ainda brilhavam fracamente com poder residual. Cada arma havia sido forjada especificamente para seu portador gigante, abençoada pelos deuses, imbuída com propósito sagrado de proteger a Terra.
"Olhe isto," Lucius disse, parando diante de um escudo parcialmente enterrado.
A superfície do escudo mostrava imagem gravada - um gigante de joelhos, segurando algo pequeno e delicado em suas mãos enormes. Levou um momento para perceber o que era: crianças. Crianças humanas e élficas, protegidas nas palmas do guerreiro colossal.
"Eles não eram apenas armas," disse suavemente. "Eram protetores. Guardiões."
"Sim," Lucius concordou. "Os gigantes foram criados não apenas para destruir demônios, mas para proteger os pequenos e frágeis. Para serem muros vivos entre escuridão e luz."
Melian acordou e começou a chorar - não de medo, mas fome. Paramos brevemente para alimentá-la com o pouco leite diluído que tínhamos conseguido preservar, embora soubéssemos que não duraria muito mais.
"Ela precisa de cuidados adequados logo," Lucius disse preocupado. "Bebês são frágeis. Sem nutrição adequada, sem calor, sem..."
"Eu sei," interrompi, olhando para rostinho pequeno de Melian. Ela me olhava com confiança absoluta, completamente dependente de dois homens que mal sabiam como cuidar de si mesmos, muito menos de bebê. "Talvez a capela tenha respostas."
Continuamos andando. O trigo ao nosso redor sussurrava com brisas que pareciam carregar vozes - não ameaçadoras, mas tristes. Lamentosas. Como se próprio campo lembrasse dos que haviam caído ali, gigantes e elfos e humanos, todos misturados no solo que agora produzia colheita dourada.
Finalmente, após o que pareceu horas mas provavelmente foi menos, chegamos à capela.
De perto, era ainda mais impressionante. Construída em pedra branca que parecia mármore mas era algo mais - mais dura, mais pura, com veios prateados que pulsavam fracamente com luz própria. A arquitetura era élfica na essência, mas influenciada por algo mais antigo, mais divino.
Duas estátuas flanqueavam a entrada - guerreiros encapuzados, faces ocultas, segurando espadas apontadas para baixo em postura de vigília eterna. Havia algo familiar nelas, embora não conseguisse identificar o quê.
As portas da capela estavam abertas, revelando interior iluminado por luz que não vinha de fonte visível.
"Devemos entrar?" Lucius perguntou hesitantemente.
Olhei para Melian em meus braços. Ela havia parado de chorar novamente, olhando para capela com olhos arregalados como se visse algo que não podíamos.
"Não temos escolha," disse. "Ela precisa de abrigo. E talvez... talvez este lugar tenha respostas."
Respirei fundo e cruzamos o limiar.
O interior da capela era vasto - muito maior que aparência externa sugeria. O teto abobadado se erguia talvez vinte metros, suportado por colunas de pedra branca. Vitrais coloridos decoravam as paredes, mostrando cenas de batalhas antigas - a criação dos elfos pelos deuses, a corrupção de metade deles pelos demônios, e depois, numa sequência dramática, a forja dos gigantes. Uma imagem mostrava deuses vertendo sua própria essência em moldes colossais, seus rostos mostrando tanto determinação quanto tristeza, sabendo que esta seria sua última criação.
Outra mostrava os gigantes marchando para batalha, cada um carregando não apenas armas mas também símbolos de proteção - escudos decorados com imagens de crianças, estandartes mostrando famílias, lembretes constantes de por que lutavam.
E finalmente, a última sequência mostrava os gigantes caindo um por um neste campo, enquanto ao longe, elfos leais completavam o selamento da fenda. Era visual de sacrifício absoluto - os gigantes compraram vitória com suas vidas, sabendo que não sobreviveriam para ver mundo que salvaram.
Bancos de madeira ainda estavam alinhados ordenadamente, como se congregação pudesse chegar a qualquer momento para serviço. Um altar dominava o fundo, feito da mesma pedra branca, com símbolos gravados que reconheci como pertencentes aos deuses antigos - não a nenhum deus específico, mas aos deuses coletivamente.
E nas paredes, inscrições. Milhares delas, cobrindo cada centímetro de espaço disponível, escritas em élfico antigo.
Aproximei-me de uma e li em voz alta, minha voz ecoando estranhamente no espaço vazio:
"Lind-Aurë Malina - Campo do Trigo Bendito. Aqui caíram os últimos gigantes, a derradeira criação dos deuses. Aqui a terra bebeu tanto sangue que magia em si chorou. Aqui erguemos este santuário para que morte não seja esquecida, para que sacrifício seja honrado, e para que vida possa eventualmente retornar."
"Lind-Aurë Malina," Lucius repetiu. "Campo do Trigo Bendito em élfico. Este lugar tem nome. Foi intencional."
Li outra inscrição próxima: "Que o trigo cresça onde gigantes caíram. Que colheita dourada seja lembrança eterna de que da morte pode vir vida. Que nenhum mal pise este solo sagrado molhado com sangue dos últimos guardiões."
Olhei ao redor, notando mais detalhes. Havia quartos nos fundos - dormitórios simples mas funcionais. Uma cozinha com poço que ainda produzia água limpa quando testamos. Despensas vazias mas organizadas, como se esperando ser preenchidas.
"Este lugar foi construído para ser habitado," disse. "Não apenas capela, mas fortaleza. Ou santuário."
"Para quem?" Lucius perguntou.
Antes que pudesse responder, senti algo. Uma presença. Não ameaçadora, mas antiga e poderosa. Como se o próprio edifício estivesse... vivo? Consciente?
Uma voz ecoou através da capela - não com som, mas diretamente em minha mente. Suave, feminina, carregada com peso de séculos:
"Sedharion. Filho da Aranha de Prata. Você encontrou seu caminho até mim."
Congelei. "Quem está falando?"
"Eu sou o que resta. Eco de propósito antigo. Esta capela foi construída por ordem divina, santificada por sacrifício dos últimos gigantes, e destinada a servir aqueles que foram escolhidos para caçar escuridão."
"Caçar escuridão?" repeti.
"Os Caçadores. Ordem de guerreiros sagrados que protegiam fronteiras entre planos. Que perseguiam demônios que escapavam, que selavam rupturas, que mantinham vigília eterna. Eles foram estabelecidos após o selamento, treinados aqui neste solo sagrado onde gigantes deram tudo. Todos caíram eventualmente. Todos menos o propósito."
Imagens inundaram minha mente - guerreiros vestindo mantos brancos marcados com símbolos de caça, empunhando armas benditas, movendo-se através de terras devastadas em missões sagradas. Vi-os lutar contra demônios que haviam escapado do selamento, selar pequenas fendas que ameaçavam se abrir, proteger inocentes de corrupção demoníaca.
E vi-os cair, um por um, até que nenhum restasse.
"A Ordem morreu," a voz continuou, "mas o juramento permanece. E você, Lindir Sedharion, carrega em si sementes de recomeço."
"Eu não sou caçador," argumentei. "Sou apenas—"
"Você é cantor de canções purificadas. Portador de lâmina bendita. Protetor de inocentes. E agora, guardião de criança que carrega sangue de dois mundos."
A presença pareceu se concentrar em Melian, que dormia tranquilamente em meus braços.
"Metade demônio, metade humana. Paradoxo vivo. Ponte entre mundos. Ela atrairá tanto luz quanto escuridão. Precisará de proteção que apenas este lugar pode oferecer. Este solo onde gigantes verteram seu sangue, onde última vontade dos deuses se manifestou, onde mal não pode pisar."
"O que você quer?" perguntei diretamente.
"Barganha. Oferta. Escolha."
A presença pulsou, e subitamente havia três caminhos claros em minha mente, como se estivessem sendo desenhados diretamente em meu cérebro.
"Primeiro caminho: Levem a criança e partam. Eu não interferirei. Mas demônios a encontrarão eventualmente. Seu sangue os chama como farol. Ela morrerá jovem, caçada e assustada."
Vi isso - Melian crescendo em fuga constante, olhando sobre ombro, até inevitável dia quando demônios a alcançassem.
"Segundo caminho: Deixem a criança comigo. Eu a protegerei dentro destas paredes. Ela crescerá segura mas sozinha. Sem família, sem amor, apenas sobrevivência dentro de santuário eterno."
Vi isso também - Melian crescendo entre estas paredes brancas, segura mas isolada, nunca conhecendo mundo exterior, nunca tendo infância real.
"Terceiro caminho: Fiquem. Todos vocês. Reconstruam o que foi perdido. Façam desta capela novamente o que era - santuário de Caçadores. Em troca, eu protegerei a criança. Esconderei sua presença de demônios. Criarei barreira que eles não podem cruzar, sustentada pelo sacrifício dos gigantes que caíram aqui."
"E o custo?" Lucius perguntou, sempre pragmático.
"Suas memórias, Lindir Sedharion. Não todas - nunca todas. Mas as mais dolorosas. As que o prendem ao passado e impedem que viva presente. Alariel. O massacre. A culpa que corrói sua alma. Eu as tomarei e as guardarei, liberando você para servir propósito novo."
"Não!" Lucius protestou imediatamente. "Suas memórias fazem quem você é! Sem elas—"
"Sem elas," interrompi suavemente, "eu poderia viver. Verdadeiramente viver, ao invés de apenas existir entre sombras de mortos."
Olhei para Melian. Ela precisava de proteção que eu não podia dar sozinho. Precisava de lar seguro. E esta capela oferecia isso - mas apenas se eu pagasse preço.
"Quanto tempo?" perguntei. "Se eu concordar, quanto tempo terei que ficar?"
"Até que a Ordem seja restaurada. Até que pelo menos um Caçador verdadeiro caminhe novamente. Pode ser anos. Pode ser décadas. Pode ser até o fim de seus dias."
"E Lucius? E Melian?"
"Lucius pode escolher ficar ou partir. Se ficar, manterá suas memórias mas compartilhará responsabilidade de reconstruir. Se partir, levarei a criança para criar sozinha, ou enviarei ambos - ele e a criança - para local seguro que encontrarei, mas você nunca os verá novamente."
Silêncio pesado caiu. Olhei para Lucius.
"É sua escolha," ele disse suavemente. "Mas saiba que qualquer escolha que fizer, estarei ao seu lado. Se ficar, fico. Se partir, partimos juntos."
Olhei para Melian novamente. Seu rostinho tão pequeno, tão inocente. Ela não pediu para nascer metade demônio. Não pediu para ser caçada. Não pediu para perder ambos os pais antes mesmo de ter chance de conhecê-los.
Pensei em Alariel. Em nosso filho que nunca nasceu. Em promessa que havia feito de proteger, de fazer algo significativo com vida que me restava.
E pensei nas palavras de Elaria: "Não deixe a escuridão consumir você completamente."
Talvez esquecer não fosse fraqueza. Talvez fosse libertação.
"Eu aceito," disse, minha voz firme. "Terceiro caminho. Fico, reconstruo a Ordem, protejo Melian. E em troca... em troca, tome as memórias que me prendem."
"Lindir—" Lucius começou.
"Está decidido," interrompi. Olhei para ele. "Mas você não precisa ficar. Leve Melian. Encontre vida para ambos. Não os prendo ao meu juramento."
Lucius ficou em silêncio por longo momento, olhando entre mim e a bebê.
"Não," ele disse finalmente. "Já perdi família uma vez. Passei anos à deriva assim como você. Aqui, agora, com você e esta criança... sinto propósito novamente. Fico. Ajudo a reconstruir. Ajudo a protegê-la."
Sorri, genuinamente grato. "Obrigado, amigo."
"Então está selado," a voz da capela ecoou. "Lucius partirá com a criança. Eu os levarei para lugar seguro, onde ela crescerá protegida e amada. Quando ela tiver idade adequada para treinar, retornarão. E você, Lindir, ficará aqui. Reconstruirá. E quando estiver pronto, quando o primeiro Caçador novo caminhar, suas memórias retornarão."
"Espere," disse. "Você disse que Lucius partirá. Pensei que ele ficaria—"
"Bebê precisa de cuidados que este lugar não pode fornecer ainda. Precisa de nutrição, calor, comunidade. Lucius a levará para vilarejo próximo, estabelecerá vida para ela. Quando for velha o suficiente - talvez oito, talvez dez anos - eu os guiarei de volta. Então, vocês a treinarão juntos."
Olhei para Melian. A ideia de me separar dela tão rapidamente, depois de tudo, doía. Mas a lógica era inegável - bebê não podia sobreviver em capela vazia comigo tropeçando através de reconstrução.
"Está bem," concordei relutantemente. "Mas Lucius - prometa que a manterá segura. Que lhe contará sobre pais que a amavam."
"Prometo," Lucius disse solenemente. "E quando voltarmos, você a conhecerá novamente. Talvez sem lembrar por que ela é importante, mas saberá em seu coração."
"Agora, despedidas. Rápidas. O processo começará em breve."
Segurei Melian pela última vez, olhando para seu rostinho. Ela olhava para mim com olhos tão confiantes, tão inocentes.
"Melian," sussurrei. "Seu nome é Melian. Não vou lembrar disso. Não vou lembrar de prometer protegê-la, de dar seu nome, de tudo que passamos. Mas prometo - mesmo sem memórias - que quando voltar, darei tudo de mim para mantê-la segura."
Beijei sua testa suavemente, então passei-a para Lucius.
"Cuide dela," disse, voz embargada.
"Como se fosse minha," Lucius prometeu.
Ele caminhou em direção à saída da capela, Melian segura em seus braços. Na porta, virou-se uma última vez.
"Te vejo em alguns anos, amigo. Não esqueça completamente de nós."
"Tentarei," disse, embora soubesse que não teria escolha.
Eles saíram. A porta se fechou atrás deles.
E eu estava sozinho na capela vazia.
"Está pronto?" a voz perguntou.
"Não," admiti. "Mas faça assim mesmo."
"Feche os olhos. Isto será... desconfortável."
Obedeci, fechando os olhos.
Senti algo tocando minha mente - delicado mas implacável, como dedos fantasmagóricos vasculhando através de memórias. Não era doloroso fisicamente, mas havia angústia emocional enquanto momentos preciosos eram arrancados.
Vi Alariel pela última vez - seu sorriso, seus olhos verdes, o som de sua risada. Depois desapareceu, dissolvendo-se como fumaça.
Vi o massacre do casamento - flechas caindo, sangue no chão de mármore, traição de meu pai. Depois desapareceu, deixando apenas vago senso de perda.
Vi Melian em meus braços, seu peso pequeno, seu choro frágil, o momento em que dei seu nome. Depois desapareceu, deixando apenas impressão de algo importante esquecido.
Vi Valdris e Elenna, seu amor trágico, suas mortes heroicas protegendo sua filha. Depois desapareceram.
Camada após camada de dor, culpa, tristeza - todas cuidadosamente removidas e guardadas em algum lugar profundo onde não podiam me ferir.
Quanto tempo passou? Minutos? Horas? Não sabia.
Quando finalmente abri os olhos, estava ajoelhado no chão da capela, rosto molhado com lágrimas que não lembrava chorar.
"Está feito," a voz disse suavemente. "Bem-vindo, Caçador. Sua nova vida começa agora."
Levantei-me lentamente, olhando ao redor da capela como se vendo pela primeira vez.
Lembrava meu nome - Lindir. Lembrava que era elfo, que tinha família (embora detalhes fossem confusos). Lembrava como lutar, como cantar, habilidades básicas de sobrevivência.
Mas tudo mais? Vago. Nebuloso. Como sonho esquecido ao acordar.
Havia sensação persistente de que algo importante havia acontecido. Que alguém importante estava faltando. Mas não conseguia identificar o quê ou quem.
"O que faço agora?" perguntei em voz alta.
"Reconstrua. Limpe. Prepare. Quando a criança retornar, este lugar deve estar pronto para recebê-la. Deve ser lar. Deve ser santuário. Deve ser escola onde Caçadores são forjados novamente, como eram nos dias após o sacrifício dos gigantes."
Olhei para capela vazia ao meu redor - não fisicamente em ruínas, mas sem vida, sem propósito além de estrutura.
E pela primeira vez em muito tempo - embora não lembrasse quanto tempo - senti algo parecido com propósito.
"Então vamos começar," disse.
E comecei a trabalhar.
FIM. OID